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Conversando com ele | Coca Trevisan

Imagem gerada por AI

Você está sentado na praça, num bar ou descansando em casa. E de repente, não mais do que de repente, mas assim, de repente mesmo, aparece Jesus para conversar, bater um papo com você.

 

   O que você falaria, pediria? Estou falando sério, vamos imaginar, afinal acreditamos “Nele” não é mesmo?

 

   Vamos imaginar a situação. Eça de Queiroz tem uma passagem em “A Relíquia” sugerindo a aparição. Seu personagem diz que se sentiu comovido quando seus olhos mortais viram a forma encarnada do Mestre.

 

   Pasmo, disse: “era como se de repente me tivessem fugido da memória longos laboriosos séculos de história e de religião, nem pensei que aquele homem seco e moreno fosse o remidor da humanidade…achei-me inexplicavelmente anterior aos tempos”.

 

   Que momento, que dádiva, que delírio, que extremo dos extremos, que céu, que terra…que tudo.

 

   Vou tentar entrar no sonho. Todos sabem que adoro vinhos, então com Ele, a mesa já estava preparada, um banquete.

 

   Ele está ali, me olhando.

 

   Para mim. Eu não quero gaguejar, mas já gaguejando, digo, oi, tudo bem? Tudo bem? Isso é começo de conversa com Ele? Não, tem que ser diferente, vamos lá. Daí amigão, como vão as coisas?

 

   Piorou, perguntar isso para Ele?

 

   Amigão? Que intimidades são essas…daqui há pouco vai perguntar se já fez a declaração do imposto de renda para comprovar que está vivo. Mas Ele provar que está vivo?

 

   Isso só para descrentes e ministérios surreais de Brasília. Enquanto divago, Jesus permanece ali, na minha frente, mais tranqüilo, impossível, quieto, só me observando, que situação. Sempre imaginei esse momento depois de morto, mas agora, assim, tomando vinho e vivinho com Ele. O que faço? Ai meu Jesus, não, não…Ele já está aqui. Passou um minuto e não falei mais nada, Ele já está impaciente, tem muita gente para atender. Os mais necessitados.

 

   Bom, como me considero humano, um demasiado humano (hum, citar Nietzsche agora não é uma boa idéia), mas, seguindo, pediria para acabar com a ignorância humana, eliminando nossos males.

 

   Engraçado, qualquer um sonharia com tal momento e eu aqui “trancado”.

 

   Tinha tantos pedidos e nenhum me vem à cabeça, estou sem discernimento. Só então percebo, que apesar da macieira pecaminosa da Eva, o mundo Dele é perfeito, quem estraga somos nós.

 

   Mas Jesus segue ali e peço para aparecer mais vezes por aqui, Ele dá uma risadinha e só entendo seu sorriso minutos depois.

 

   Continuei refletindo tentando encontrar algo para pedir. Pedi para um mundo mais igualitário, fico indignado com as discrepâncias econômicas, muitos não têm nada, poucos têm muito.

 

   Charles M. Sheldon disse que mendigos não entendem a religiosidade quando entram nas igrejas, eles se questionam para os fiéis o que significa Jesus, mas não obtém suas respostas. Jesus com o Espírito Santo disse: “quando o Espírito Santo da verdade viver, Ele os guiará a toda a verdade, não falará de si mesmo, falará apenas o que ouvir e lhes anunciará o que está por vir, por isso eu disse que o Espírito receberá do que é meu e o tornará conhecido a vocês(Jo 16.13-15).

 

   É o cara.

 

   E está aqui na minha frente. Iria me atrever a uma questão, se bem que para Ele não é questão…mas vamos lá, se vou rever àqueles que já partiram, mas acho que a resposta esteja nas Escrituras.

 

   Mas o diálogo(diálogo?) segue, e já não sei mais se é realidade, sonho ou alucinação, isso não importa.

 

   Quando será que Ele vai voltar, ninguém sabe, “nem o filho sabe esse dia e essa hora, só o sabe meu Pai celestial”(Marcos 3,32).

 

   Já passaram mais de 2000 mil anos. Ele não tem pressa.

 

   Fiquei maravilhado pois pude perceber que apesar de certos “humanos”, tudo vai bem…temos natureza, amor e não precisamos de tubos de oxigênio para respirar…

 

   Obrigado Senhor.

 

   É isso, vou agradecer por tudo, mas quando levantei os olhos para agradecer Ele já havia partido.

 

  E aí entendi porque Ele riu quando pedi para aparecer mais vezes por aqui.

 

   Ele sempre está aqui.

Fotografia de Coca Trevisan

O jornalista Coca Trevisan nasceu em Santa Maria, RS. Atuou como repórter e redator nos jornais NH, de Novo Hamburgo; VS, de São Leopoldo e Jornal Alto da XV, de Curitiba. Como profissional freelancer assinou matérias em diversos periódicos. Participou de workshops e atuou em debates sobre a Indústria Cultural dos anos 1980/90. Mais recentemente, concluiu pela PUC-RJ o Curso de Extensão Origens do Existencialismo. Mantém e abastece o blog Violências Culturais. Atualmente mora em Florianópolis, SC.

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