Cultura

O verbo que liberta | Hélder Malele

Foto: Divulgação Azagaia

(Crónica da 2.ª Edição da Biblioteca Azagaia)

 

“O verbo que liberta_1”

 

“O verbo que liberta_2

 

Na tarde do dia 9 de maio, a residência do falecido músico e rapper Azagaia, na Matola, transformou-se no epicentro de uma simbiose perfeita entre a oralidade tradicional, o debate cívico e a celebração artística. A segunda edição da exposição móvel Biblioteca Azagaia decorreu sob o lema “O Verbo que Liberta”, funcionando não apenas como um espaço de memória, mas sim como um verdadeiro sarau cultural e uma vibrante ferramenta de intervenção social.

 

Idealizado pela família Da Luz e pelo escritor moçambicano Morgado Mbalate, que assume a curadoria do projecto, este movimento independente e em fase embrionária deu um salto qualitativo memorável desde a sua génese. Importa recordar que a primeira edição da Biblioteca, realizada sob o lema “O Verbo que Não se Cala”, teve lugar no recinto da Universidade Pedagógica (UP), contando, na altura, com a prestigiada presença do Magnífico Reitor. Se o primeiro passo firmou as bases do projecto na academia, esta segunda paragem provou que o legado de Edson da Luz continua a ser um dispositivo vivo e enraizado na comunidade.

 

O evento “Azagaia Em Casa” na Matola contou com uma assistência calorosa de cerca de 50 participantes — entre fãs e admiradores —, além da presença institucional da comitiva a representar a Vereação da Cultura e Turismo do Município da Matola, cujo apoio logístico, de segurança e de equipamento sonoro garantiu o sucesso e a dignidade do encontro.

 

As portas abriram-se às 10:00 para uma visita guiada ao acervo e à biblioteca pessoal do autor de Babalaze (Ressaca) e Cubaliwa (Renascimento). A moldura humana de cerca de 50 pessoas espelhou o impacto contínuo do músico: o público presente visitou o espólio com reverência, adquiriu o merchandising oficial do projecto e celebrou ativamente a obra de Azagaia ao longo de todo o dia.

 

A primeira parte do evento foi marcada por momentos de profunda emoção. Contou com a participação especial da ativista Quitéria Guirengane, que visitou o acervo, interveio e deixou o seu valioso testemunho sobre o impacto da obra do rapper, tendo-se retirado mais cedo devido a uma viagem agendada.

 

Um dos pontos mais altos e sensíveis deste sarau cultural residiu na presença e no envolvimento direto da família Da Luz. A viúva de Azagaia, co-idealizadora do projecto, subiu ao palco para prestar as suas homenagens, reforçando o compromisso com a continuidade desta missão. O momento do Open Mic (Microfone Aberto) foi profundamente enriquecido com a participação do pai de Azagaia e das suas filhas, que protagonizaram homenagens tocantes, transformando a dor da ausência numa celebração coletiva de orgulho e amor.

 

Por volta das 14:00, o ambiente de partilha e proximidade consolidou-se com um finger food, que serviu de prelúdio para o debate central. O sarau ganhou ainda mais força com a performance de Eduardo Salmo, que brindou os presentes com um poderoso Xithokozelo (poema de louvor e exaltação tradicional), trazendo a força da tradição oral para o centro da intervenção contemporânea.

 

Às 15:00, teve início o painel de discussão: “Azagaia: Da rima à consciência cívica – O papel da literatura e da arte na construção de uma cidadania ativa”. Sob a minha moderação, o debate deu lugar à palavra reflexiva, cruzando diferentes gerações e perspectivas da sociedade civil moçambicana.

 

A jovem ativista Adozinda Maviga assumiu a palavra em representação da Geração 16 de Março e da própria Quitéria Guirengane. Sob o eixo do verbo que mobiliza, Adozinda defendeu que “Azagaia construiu uma pedagogia cívica radical”. Evocando temas como “E tu, calaste!”, a oradora instou a juventude a recusar a cumplicidade do silêncio e a não aceitar passivamente as versões oficiais dos factos, transformando a frustração numa intervenção social ativa.

 

De seguida, o jornalista de investigação Luís Nhachote, influenciado pelo rigor e pela ética do espírito “cardosiano”, traçou um paralelo entre o jornalismo de fiscalização e o rap de Azagaia. Nhachote interpelou diretamente o público, questionando, de forma insistente, se as novas gerações ali presentes tinham plena consciência do significado político e histórico daquele espaço e daquele legado.

 

O poeta e declamador Ivandro Sigaval elevou a intensidade ética do debate ao afirmar que “uma juventude que não é revolucionária é uma juventude com uma contradição genética”. Sigaval recorreu a uma análise metodológica da obra do rapper para demonstrar que, mais do que um artista, Azagaia era um intelectual. Analisando a faixa “As Mentiras da Verdade”, destacou como o rapper utilizava o condicionalismo (“Se eu dissesse que Samora foi assassinado…”) para levantar hipóteses e ensinar o povo a pensar criticamente, atropelando a lógica do capitalismo e colocando a ética muito acima da estética.

 

O debate com o público gerou provocações fundamentais para o amadurecimento do projecto. Entre as reflexões propostas, destacou-se a intervenção do artista Mapindza, que privou de perto com o ícone e alertou para o perigo de um excesso de intelectualização de Azagaia, sugerindo que se celebre também o seu lado mais humano: o homem cultural, simples e de coração aberto.

 

Houve ainda espaço para questionar a ausência de figuras do rap que trabalharam diretamente com o músico. Em contrapartida, o evento orgulhou-se de registar a presença solidária de artistas como Enigma (do Projecto Firme), Epaitxoss One (referência do rap de batalha) e Kloro (que marcou presença na primeira edição).

 

Respondendo às inquietações do público sobre o acesso permanente aos livros, a organização assumiu como desafio futuro a transição deste modelo de biblioteca móvel para formatos mais abrangentes. Afinal, as feições de todos os participantes espelhavam a busca por um legítimo defensor de uma sociedade mais justa.

 

A 2.ª edição da Biblioteca Azagaia provou que o legado de Edson da Luz é um bem público indispensável para a educação e cidadania em Moçambique. Como bem sintetizou Adozinda na sua conclusão: “É só seguir o combinado”.

 

Fica o desejo e a expectativa firme de que se realizem muitas mais edições desta iniciativa por todo o país. O verbo foi lançado, a inquietação foi semeada e a marcha da cidadania continua.

fotografia de Hélder Malele.

Hélder Melele é sociólogo, locutor e activista de hip hop moçambicano

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