
A morte da empatia humana é um dos primeiros e mais reveladores sinais de uma cultura à beira da barbárie
Hannah Arendt
A nem tão menina Sophia, não obstante, ainda assim, menina – porque, muitas vezes, desse modo era como se dispunha –, flagrou-se deslindando os ecos e a ressonância que guardaria o cookie integral de gotas de chocolate amargo que acompanhava o paladar do (seu) expresso, quando, naquele café do bairro de Botafogo, a convite, se encontraria. Era uma tarde sabática de janeiro, imbuída de aprazível e acolhedora expectativa em rever os amigos de longa data. À noite, porém, viria o malogro disso – esmerilado nos sucedidos ruídos que o lugar e o casal com quem estava emitiam. Mesmo no intento de se convencer do contrário, em nome de uma possível justificativa para ela própria: aquele deslocamento não poderia custar-lhe tanto assim. Mas a custou, consumindo toda sua bateria social e alegria. Ao se expor, qual fosse, a presença da vez, o que a tomava era o que dava a ver uma Sophia, fidedigna, entregue, disposta a outrem: íntima confissão, a transparência –tão em desuso, como, há tempos, vinha tomando nota. Onde estar para o outro, onde o querer bater prosa (e até poesia): o segredo de raro conseguimento. A menina até ensejava, mas se perfazia só, ensimesmada – no canto avulso do existir. Parte por sua neurodivergência, parte por perdidos recebidos frente ao tempo de antiamor com o qual muitos, inclusive ela, foram (des)educados. Malgrado, e sem hesitar, uma outra cartilha, desde cedo, seria a escolha de Sophia para o seu letramento sentimental. Independente do que os outros poderiam achar.
Sua forma de perceber as coisas colocava em relevo o que para a maioria passava despercebido. Essa era uma diferença. A sua diferença. Constantemente, ouvia dizer que o seu fraco, em função do diagnóstico que a engavetava, residiria em não atender à leitura que não fosse literal e exigente de hermenêutica, digamos, mais elaborada. Ledo engano. O pulo do gato de Sophia estava no domínio justamente da linguagem. Primeiro, a visual, na tenra infância. Depois, a escrita, no adolescer e na fase adulta. Foi com esta com quem ela, inclusive, viria assumir compromisso sério, doutoral. A essa altura, já compreendia bem que um vocábulo deslocado de seu contexto (ou, às vezes, nem isso) poderia cair como um bólido em chamas, levando-a a relações bélicas capazes de implodir, instantaneamente, qualquer possibilidade mínima de diálogo. O radicalismo irremediável de contornos inflamados, túrgidos, em que não é permitido comprar a passagem de volta – eis o tempo com o qual ela tentava lidar. (E fracassava.)
Palavra dita, palavra que não se rasura, tampouco, se apaga. Esses eram momentos em que se arriscava: a necessidade de ser ou, pelo menos, de estar com(o) os demais: cumprir os deveres da socialização na perspectiva que os coadunasse e ativasse a beleza do que é humano. Ou o que deveria sê-lo, como estimava. Apesar do irremissível, da torção do que é expresso, falas e mãos inábeis, optava, teimosa, pela partilha. No entra e sai da conversa, o ritmo arrolava à sabedoria tudo o que era falado, o que conferiria à Sophia uma forma de existir por cima, como se tomasse distância, e em cujo movimento dos olhos seria encontrada a certeza de que, sim, fazia jus, ainda que com orgulho ferido, à etimologia grega de seu nome. Derivado de sophós, Sophia, sapiência, inteligência, habilidade.
A forma delicada e genuína com que comeria o cookie seria idêntica a de quando decidiu oferecer aos presentes. Pedaços se espatifaram. O gosto não os agradou, revelando que até o paladar dos dois era infantil. E isso foi o que os fez passá-lo de mão em mão, de lá para cá, de cá para lá, em diapasão social e altamente reprovável aos olhos da menina. Sophia os acompanhava com desprezo, enquanto tentava forjar um tímido sorriso. O esfarelamento em cima da mesa faria com que ela testemunhasse o verdadeiro nascedouro do verbo rejeitar. Não, não era (só) sobre o cookie, notadamente. A devolutiva de desgosto, o não-gosto, pertenceria agora à Sophia. Seu pensamento, afeito à solitude, a reforçava com um franzir da fronte. O sombreado do gesto – ao arrepio do clarão da consciência, incessável mood familiar que de repente, em segundos, deixaria de sê-lo. Havia esfarelado e caído no chão junto com os restos do biscoito. Eles não a diziam mais. Era qual fala de uma sensibilidade subtraída, em que não era permitido que ela, Sophia, pudesse ser o que sempre foi e que, apesar dos pesares, não gostaria de abrir mão.
Ainda cedo, ameaçaria se levantar, mas de pernas bambas, mesmo com a pressão alta, não conseguiria no tempo que precisava. O vislumbre de pássaro que lhe dava o vulto da leveza, como da invisibilidade, o desejo, inopinado, de ir embora dali quanto mais não havia. De diminuir imprecisamente a carência que dali emergia. O gosto do vermelho subia à boca. Um gosto que era delicado e maior que o da fome – experimentava fazê-lo avivada pela chance de aprendizado, reflexão a mil, fórmula empática do amor: Sophia escrevia demorada. Sua pena não dava um a-mais, sua certeza era de que dava para o bem, ainda que sofrendo o estado adoecido do mundo. Avermelhada na cabeça, branca nos lábios, sob a vigília dos olhos de fora, não se sentia capaz de verborreagir com aqueles dois estranhos – sim, era preciso admitir – sentados à sua frente, forjados no sorriso de mil dentes e sem compaixão alguma. Dois desconhecidos, sem mais.
Um abraço, naquele instante, talvez, pudesse silenciar intimamente a menina. Na sua forma mais bonita de adentrá-la, enternecedora e tudo o mais que sentisse vontade – era forçoso evocar, a maior parte das vezes, a título de companhia, que ela até o registraria, em sua carta, endereçada ao poeta favoritado do momento. Mas nem isso tornou-se presente. Era na adivinhação da relação com o(s) outro(s), ou antes, de uma certa imaginação, de uma certa criação contra a realidade, que Sophia se servia das letras pinçadas daquele coração maior que a sua própria boca. Sophia gostava mesmo era do que ela havia inventado de todos eles.
Letícia Ferro é doutora em Letras e Linguística pela UFG. E-mail: let_ras@hotmail.com










