
Príncipe é um gato dos pampas, carinhoso, faceiro e que gosta muito de dormir.
Escolheu a cama do dono do apartamento em que vive.
Quando não está dormindo e Fred, seu dono, se aproxima, ele fecha rapidinho os olhos e às vezes até ronca pra que Fred o deixe em paz, com o calor e a maciez das cobertas cheirosas. E assim vai levando a vida. Às vezes sobe na janela para observar o movimento, as possíveis e deliciosas presas que passam voando, vai que alguma desprevenida entra, aí ele já tem um jantar suculento.
O felino vivia na mais perfeita paz, até que certo dia viu pela janela uma gatinha linda, toda branquinha. O coração de Príncipe disparou, parecia que ia saltar do peito. Ele miou, miou e nada da encantadora gatinha olhar para ele, para que pudesse mostrar-lhe seu interesse, até que veio uma moça e levou sua amada nos braços. “Bah, nem um olhar”, miou Príncipe (gatos gaúchos miam bah). “Vou ficar de bituca e assim que ela aparecer vou miar tão alto que o prédio vai estremecer”. Tão logo o dia raiou, lá foi ele para a janela esperar sua amada. As horas passavam e nada da branquinha aparecer. Príncipe adormeceu cansado, o dia estava quente mas ele não arredou pata.
Preocupado, Fred o chamou várias vezes, achou que ele estivesse doente, nunca tinha visto Príncipe tanto tempo na janela. Tentou tirá-lo dali, mas o gatão apaixonado rosnou para seu dono/escravo e voltou para a janela, prosseguindo na longa espera. Afinal, a moça deixou sua gatinha com todo o cuidado na janela. Era a chance de Príncipe para tentar conquistar sua princesa, miou muitas vezes, até ficar rouco, mas parecia que ela o ignorava, jamais olhava em sua direção.
Foram longos dias na mesma tentativa fracassada, Príncipe foi ficando triste, não entendia o porquê de nunca ter recebido um gesto de carinho, um olhar sequer.
Certo dia, alguém tocou a campainha e o gato ouviu uma voz de mulher. Era a voz da dona/escrava de sua amada, reconheceu, pois sempre a ouvia dizer “Vem com a mamãe” quando pegava a gatinha na janela. Príncipe voou para a sala e ouviu a moça dizer:
– Soube que o senhor gosta de gatos e cuida bem deles. Tenho de viajar, gostaria de saber poderia ficar com a Milu até eu voltar.
– Claro –, respondeu Fred todo empolgado, pois a moça era linda e ele era um paquerador inveterado, um cuzco sem vergonha. – Mas o senhor tá no céu, me chama de Fred. Como é teu nome? Que dia tu viaja, guria?
– Me chamo Sílvia, viajo em três dias, respondeu a moça, com um sorriso sedutor.
Foram os três mais longos dias da vida de Príncipe,
Chegou o dia e lá estava Fred, de banho tomado, camisa jeans e calça idem, e Príncipe, o pelo brilhando de tanta lambida. A campainha tocou e chegaram as duas belezuras, juntamente com um saco enorme da ração mais cara, o suficiente para Milu e Príncipe comerem durante um mês. Não sei o que passou na cabeça de Fred, mas deve ter sido algo semelhante aos pensamentos de Príncipe:
“É muita felicidade pra esse pobre coração, vou cobri-la de beijos”. Seu sangue fervia, seu coração batia forte.
Depois de Sílvia e Fred combinarem um jantar em agradecimento pela gentileza de Fred, era o mínimo pelo favor, ambos ouviram a moça dizer, na despedida:
– Cuidem bem dela, minha gatinha é cega, sofreu um acidente e nunca mais vai ver a luz do dia.
Sílvia ficou fora 10 dias. Em cada um desses dias, Milu foi literalmente banhada pelos beijos e lambidas de Príncipe. E, no oitavo dia, a gatinha voltou a ver. Não muito, o suficiente para desviar dos móveis, para correr pela casa, feliz.
Teria sido um caso de cegueira temporária? A saliva de Príncipe teria propriedades curativas? Ou o amor do gatão pela gatinha comoveu os deuses, que a curaram? Pouco importa. O essencial é que os dois casais – Sílvia e Fred, Milu e Príncipe – vivem felizes, até que a morte (ou a vida) os separe.
In Contos sobre gatinhos e outros bichos (2026)
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Meu nome é Carlos Eduardo (Cadu) Matos. Nasci em 1946, em Niterói, cidadezinha diante do Rio de Janeiro – uma Almada da baía de Guanabara. Formei-me em Direito em 1968 mas jamais advoguei. Dei aulas de Sociologia na Fundação Getúlio Vargas- SP e, antes disso, em 1975, na Escola Bento de Jesus Caraça, em Évora. Sempre exerci o ofício de escritor. Desde 1969 trabalhei como editor, redator, tradutor, preparador de texto e revisor para editoras de fascículos, revistas e livros didáticos e não didáticos. Contudo, apenas em 2018 escrevi meu primeiro texto pessoal, não encomendado por uma empresa. E não parei mais. Lancei quatro e-books pela Amazon: Shoshana – publicado na íntegra em quatro edições sucessivas da InComunidade – e os livros de contos Lili dos dedinhos, A outra e Rebeldes.










