Cultura

No reino de Fundanga I: Pero | Xico Simonini

imagem: omunicipio.jor.br

Xico Simonini

E assim disse Vaz de Caminha, o dito pelo dito e o dito pelo não dito, também… Nas margens plácidas… O brado heroico e retumbante… Do deitado, eternamente, em berço esplêndido…

 

“Senhor. Posto que o Capitão-mor desta vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta Vossa terra nova, que nesta navegação agora se achou.”

 

Noventa e cinco por cento de Explorados, Expropriados e Espoliados deste Reino destas Fundangas Varonis de Des-Encantos mis não têm motivos para comemorar, absolutamente, droga nenhuma de quinhent’anos. Maioria sobrevivente e moribunda morrendo e sobrevivendo aos trancos e barrancos. Um mundão de gente, umas mais do que outras, purgando a lógica perversa, horrípila e maldita, imposta pelos Imperadores Internacionais da Vida e da Morte, rigorosamente executada pelos restantes cinco por cento de malditos, malocados e maliciosos prepostos, prebostes e prebendados.

 

“Quarta-feira, 22 de abril: neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! Primeiramente, dum grande monte, mui alto e redondo… Ao monte alto o capitão pôs o nome: Monte Pascoal e à terra: Terra da Vera Cruz.”

 

E se oficializava, pois, a sacanagem, bandalheira, devassidão e podridão do Colonialismo, com a chegada da Civilização à Terra de 46.000 a.C. de História sabida. Começa o massacre generalizado, infindável e selado na combustão do Pataxó Galdino, cujo grande crime era não ser – apenas – um mendigo e ser apenas um índio dorminhoco, num abrigo de ônibus, nas imediações da Fundação Nacional dos Indesejados (Funai), na Corte onde se encontra o Planalto do Alvoroço, no Alvoraçado Planalto, à mercê de jovens membros da canalha. Canalhas…

 

“A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas.”

 

A preagem campeia solta. Em cento e trint’anos, dois milhões de nativos foram mortos ou escravizados. Chegam os negros para a divisão do infortúnio. Desgraça alforriada pela necessidade eterna e proclamada de se “Fazer primeiro o bolo crescer para depois dividi-lo com todos.” Ideologia deslavada, falsa e mentirosa dos delfins (antônios ou não), querubins e serafins das trevas. E se oficializa a chamada Guerra Justa, antes contra os índios, hoje, NO REINO DE FUNDANGA contra a Maioria – vermelhos, negros, brancos, amarelos, mulatos, mamelucos, cafuzos…

 

“Também andava aí outra mulher moça, com um menino ou menina ao colo, atado com um pano aos peitos, de modo que apenas as perninhas lhe apareciam. Mas as pernas da mãe e o resto não traziam pano algum.” 

Ah! Mulheres e crianças varonis de encantos mis deste Reino! Conspurcadas por Preconceitos vis. Violentadas por Lucros vis. Coisificadas pela Sensualidade fácil do bom xibom, xibom bombom. E tome bumbum no bombom da Alienação! Mulheres e crianças sem o Amanhã, dos sem Amanhãs, dos noventa e cinco por cento de Explorados, Expropriados e Espoliados destas Fundangas Varonis de Des-Encantos mis e vis.

 

“Diziam que em cada casa se recolhiam trinta ou quarenta pessoas, e que assim os achavam; e que lhes davam de comer daquela vianda, que eles tinham, a saber, muito inhame e outras sementes, que na terra há e eles comem.”

 

E eles se recolhiam em casas e possuíam teto que não eram como os Sem-Teto de Hoje… E eles davam de comer e tinham alimento que não eram como os Esfomeados de Hoje… E eles trabalhavam a terra que não eram como os Sem-Terra de Hoje… Tal-qualmente, saúde, educação e lazer para todos que não eram como os Sem-Saúde, Educação e Lazer de Hoje… Quinhent’anos uma ova! Aqui, ó, procês! Quinhentos, sim, para os Silvios, Setúbals, Marinhos, Macedos e Marcelos. Baús, novelas, novelos, rolos e manivelas. Saltos, miçangas, pulos e quinquilharias aquareladas e abençoadas pelo Reino Bizantino dos terços e quartetos para o Descarrego de Encostos. Quinhentos, sim, para as tele- -alguma-coisa-qualquer, para os bancos e suas burras, para os gigantes industriais e comerciais da Engrenagem.

 

“E nesta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta terra vi. E, se algum pouco me alonguei, Ela me perdoe, pois o desejo que tinha de tudo vos dizer, mo fez pôr assim pelo miúdo. Beijo as mãos de Vossa Alteza. Deste Porto Seguro, da Vossa ilha de Vera Cruz, Hoje, Sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500. 

 

Pero Vaz de Caminha” 

 

Por tudo escrito e por tudo pensado… A nova do achamento desta Terra Nova, que nesta navegação agora se achou. Mas, porém, contudo, quiçá, todavia… Aí, as estórias continuam, são “quase” outras. As são e como a-ção.

 

Fotografia de Xico Simonini

 Francisco Simonini da Silva (Xico Simonini)  nasceu em Viçosa, MG, no dia 18 de novembro de 1941. Em sua cidade natal, em Belo Horizonte (MG), Florestal (MG), Pará de Minas (MG), Divinópolis (MG), Piracicaba (SP), Assis (SP), Primeiro de Maio (PR), Juiz de Fora (MG), Cataguases (MG), Ponte Nova (MG) e, recentemente em Santo Antônio de Pádua (RJ) construiu sua trajetória de professor e administrador do sistema educacional, além de marcante atuação na imprensa e na militância político-partidária. Aposentou-se como professor-adjunto na Universidade Federal de Viçosa (UFV), onde exercia suas funções no Departamento de Educação, do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Vem atuando, há mais de cinquenta anos, no sistema educacional público e privado (da educação infantil à pós-graduação), no ensino, pesquisa, extensão e administração. Por iniciativa individual ou coletiva participou da fundação de uma dezena e meia de escolas e cursos em todos os níveis. Sua trajetória é marcada por vigorosa atuação política, partidária e sindical e em campos diversos, como músico, desportista, comentarista esportivo, escritor, poeta, chargista e responsável pela publicação do semanário viçosense “Muzungu”.

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