
Dizem que ficou preso num elevador de mina
quase uma semana. Nós somos os bisnetos
num quarto andar que ao contar
com o rés-do-chão, meia-cave e subcave,
vai mais de um século – relevante como tabuada
ou memória da memória de um pesadelo.
Dizem que era o único do grupo que lia
e escrevia. Nunca houve folheto de instruções
de brinquedos que nos impedissem
de montar e desmontar à nossa vontade
o que tomássemos ao alcance. No canto ao alto
do elevador do prédio há uma placa com números
máximos de ocupação, quilos e a idade mínima
que não temos, lemo-los estilo lengalenga
para passar o tempo e o emparelhado de botões
que testamos um a um, o do alarme, o de parar
entre os andares. A um metro dum patamar
saltamos sobre o fosso para onde nos caíram
as cartas da mão, ganchos do cabelo, um sapato
no dia que ficou entalado. Padecia de falta de ar,
dizem que o apavorava o perder o pé. O infinito
nunca deixou de o atormentar. Somos nós,
os bisnetos reclinados sobre o inexpugnável.
Será reversível? Uma montanha invertida,
as paredes exteriores de um apartamento virgem
a estalar com a humidade.
Sofia Correia cresceu na Margem Sul, estudou Arquitetura e Urbanismo em Lisboa e na Columbia University, em Nova Iorque, onde viveu durante dez anos e onde começou a estudar narrativa com os The Writers Studio, poesia com Cynthia Cruz e, posteriormente, forma poética com The Loft Literary Center. Desde 2013 vive no Barrocal Algarvio, a terra dos seus pais e avós, com o seu marido e filhos. É empreendedora criativa da sua marca artesanal Oficina Poeta Azul e da loja Colectivo 28 em Loulé. Tem publicado poemas em várias revistas locais e da Andaluzia. Em julho de 2025 lançou o seu primeiro livro, O Labirinto das Duas Árvores, com a Editora Urutau










