
Ao chegar a Macaé foi com grande alegria que pai e filho se abraçaram, talvez pela primeira vez tão intensamente, tendo ido comemorar para o Chaplin, um bar onde a elite local costumava encontrar-se. Já em casa, o progenitor explicou- lhe que tinha a viagem de volta para Portugal agendada para depois da passagem de ano. Queria ir conhecer o Morro de São Paulo, em Santos, onde nasceu; era importante que ele o acompanhasse no regresso. “Pai”, disse-lhe com ar compenetrado: “vou consigo mas primeiro temos que ir conhecer o Brasil todo. Não posso voltar para Coimbra sem conhecer a Amazónia, o Pantanal, as cascatas de Iguaçu, o Rio Grande do Sul. Pensei que queria ir do Brasil aos Estados Unidos por terra mas agora, que o pai chegou, vamos conhecer o país que o viu nascer. Vamos iniciar a aventura em São Paulo, percorrer todas as capitais de Estado sem exceção, descobrir alguns lugares que o mundo ainda não conhece”. O pai, entre o fascinado e o incrédulo limitou-se a perguntar: “O Brasil todo? Mas isso é impossível!…Quantos quilómetros representa esse sonho?” Abriram o mapa. De fato era uma imensidão. “Só precisamos ir a São Paulo entregar ao senhor João Peralta, de São João do Campo, uns presentes que o irmão mandou para ele e em seguida partiremos em busca da realização desse teu sonho que acho tão louco quanto apaixonante. Estou contigo. Vamos abraçar esse projeto”. DuArte ficou tão apreensivo quanto feliz por o pai o acompanhar. “Sim, já me esquecia”, disse António, revelando-se algo excitado com a ideia de ir conhecer em profundidade o seu país. “Tenho aqui uma carta para ti do Sérgio Curto da América. Recebemo-la lá em casa há uns dois meses”, lembrou. Rasgou muito rapidamente o envelope: “Meu querido amigo. Como estás? Sempre conseguiste entrar em Direito na Universidade de Coimbra? Espero que sim e que o Verão esteja a ser ótimo. Por aqui está tudo bem. Os estudos estão a progredir razoavelmente, tenho alguma dificuldade em me sintonizar com a forma meio folclórica dos americanos agirem, quer colegas quer professores sorriem muito mas nem sempre com sinceridade. Mas gosto de estar aqui e o curso em Novas Tecnologias tem coisas muito surpreendentes”. DuArte sabia que o Curto estava em Nova Iorque; já tinha ouvido falar que por lá passava por algumas experiências com contornos cinematográficos sobretudo depois do 11 de Setembro. Morava, juntamente com dois amigos portugueses, num hotel da Roosevelt Street, não muito longe do lugar onde as torres foram pelos ares. O estranho é que no dia anterior à tragédia, ele, o Luís e o Alexandre, também eles amigos de DuArte, iam para entrar no elevador de uma das torres para apreciarem a cidade de um dos seus pontos mais elevados e, já com o bilhete nas mãos, afirmou: “desculpem mas não vou. Estou a sentir uma má vibração qualquer pelo que vos espero aqui em baixo”. “Então camarada, o que é que se passa?”, questionou o Ale- xandre que, perante a intensidade do feeling, que o chegou a arrepiar, decidiram: “se tu não vais nós também não vamos”. Sérgio Curto sugeriu então que fossem até ao outro lado do rio Hudson tirar uma fotografia que o Luís tem guardada religiosamente. Por baixo dos três e das torres está inscrito: 10 de Setembro de 2001. Certamente que não avaliava o tamanho da tragédia que se iria seguir, mas a verdade é que passou o dia inteiro com um intenso temor de que algo de muito grave estaria para acontecer. Nessa mesma manhã tinha passeado na China Town e, por entre gente apressadíssima, sirenes de ambulâncias, mendigos a dormir no chão e chineses afoitos, parou um segundo e disse para consigo mesmo: esta cidade está à beira de um colapso. Mais à frente entrou numa loja de roupa em segunda mão e, pasmem, comprou um casaco dos Bombeiros de Nova Iorque, azul e com uma fita amarela, que nunca usou e acabou por dar anos mais tarde ao amigo Igor, diretor do Teatro de Ferro do Porto. Igualmente estranho foi o fato de nessa mesma noite, no hotel em que morava, o sistema informático ter pifado, deixando os recepcionistas à beira de um ataque de nervos por não conseguirem fazer o check out dos hóspedes. Mais: à noite rebentou uma trovoada impressionante, horas seguidas de relâmpagos, chuvas torrenciais, ele insistindo com os seus amigos que alguma coisa de muito estranho estava para acontecer. Desde esse dia que o seu amigo Luís, gente boa, lhe chama “Guru”. Ainda com a carta pousada no regaço, DuArte recordou o dia de Dezembro em que subiu ao cume de uma das torres do World Trade Center para ver a cidade lá de cima, fria, crua, mas viva. Lamentou o sucedido mas não acreditou na versão que a América tinha passado ao mundo. Terrorismo era uma explicação fácil. Havia certamente algo mais que isso. A forma como os prédios tinham caído, em queda livre, remetia para uma espécie de demolição implosiva controlada e deixava antever outras origens para o problema.
Tinha andado dois anos na Força Aérea Portuguesa – onde era conhecido por Coimbra – e sabia que os aviões não poderiam derrubar as torres gémeas devido à temperatura do combustível não ser suficiente para derreter aço. Na sua opinião, o ataque tinha sido arquitetado para criar ódios contra os árabes, fomentar guerras e hegemonias.
José Manuel Simões
José Manuel Simões é Professor Associado e Coordenador do Departamento de ‘Communication and Media’ da Universidade de São José, Macau-China. Tem um pós-doutoramento em Ciências da Comunicação pela Universidade Católica Portuguesa, doutoramento em ‘Global Studies’ na Universidade de São José e Mestrado em Comunicação e Jornalismo na Universidade de Coimbra. É especialista em assuntos do Brasil, país sobre o qual já publicou três livros, dezenas de artigos académicos e centenas de artigos jornalísticos.










