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Cinco poemas | André Pinto Teixeira

Foto de Nicholas Bullett na Unsplash

RAZÕES PARA DEIXAR 

Deixa-me sobrevoar os campos antes que a noite engula a vida.

Deixa-me escrever um testamento com todo o meu vazio.

Deixa-me cerrar sobre a jujubeira as pétalas da visão.

Deixa-me acender um fósforo na fogueira da voz.

Deixa-me alimentar o disentérico desejo de voo.

Deixa-me atender às necessidades do vício.

Deixa-me matar o bichinho da vingança.

Deixa-me beber do barril da violência.

Deixa-me derrubar o que vi nascer.

Deixa-me abater o que vi viver.

Deixa-me derramar o leite. 

Deixa-me maldizê-lo,

Deixa-me chorá-lo;

Deixa-me.

— in Historiografia da Analepse (2021)

 

RAZÕES PARA SER UMA ÁRVORE, RAZÕES PARA NÃO

 

Eu queria escrever livros

para não morrer

sem deixar rasto.

O que eu queria mesmo

era ser

uma árvore, uma silva, um trevo,

porém não me atrevo: conheço bem

o magnetismo

que faz dançar o machado

nas mãos de um oportunista.

o saber deu-me medo

de ser floresta,

de virar alvo a abater.

Encadernado,

revisto,

espezinhado,

resignei-me

a ser

papel,

meu solo, a estante

bocas, minhas raízes,

meus ramos, reflexos,

insucessos, meu fruto

sem semente.

 

— in Historiografia da Analepse (2021)

 

INSTRUÇÕES PARA EVACUAR O PERÍMETRO DA DÚVIDA

Derruba a quarta parede.

Ali, encontrarás uma corda de caravela.

Ata-a em torno da memória e ergue as pernas

até seres uma magnólia a quarenta e cinco graus.

Quando aterrares no futuro, ouvirás um sino.

É o sinal para iniciares a conferência com a acácia.

Haja o que houver, não desligues a chamada.

Quando deixares de ouvir ruído,

estarás comigo

no paraíso.

 

— in Historiografia da Analepse (2021)

 

COMO FAZER AMEAÇAS

 

Todos de flor na lapela 

com falinhas mansas 

e eu a gritar 

a torto e a direito 

amigos

estou na ponto do promontório

sinto a maresia e o miasma nas narinas

uma insinuação insolente de pão

acabado de fazer

no forno a lenha

mas não há fogo que faça milagres

sem levedo,

destas mãos só saem subterfúgios 

para enganar a barriga.

 — inédito (2025)

 

DEMARCAR

 

Histeria

estrias 

arritmias 

ritmos pagãos

anciãos

leigos

lagoas repletas de 

insectos

antepassados

nefilins

neófitos

genótipos de proveniência

duvidosa.

 

Há que remover as marcas

para demarcar

com giz

na ardósia

o original

do sósia

o homem

do mancebo

o remédio

do placebo

a sabedoria

da propaganda

quem lidera

de quem manda.

 

— inédito (2025)

 

Legenda “Cinco poemas_1”: fotografia de

foto de André Pinto Teixeira

André Pinto Teixeira, natural de Lisboa mas com forte ligação ao Japão, é poeta e tradutor japonês-português, trabalhando principalmente com obras literárias, de cinema e banda desenhada.

Em nome próprio, lançou contos em antologias e Historiografia da Analepse (2021), obra de poesia escrita durante sete anos de vivência em Tóquio e Niigata, e finalista do prémio literário Glória de Sant’Anna 2022.


Enquanto tradutor, deu voz, até à data, a autores como Seichō Matsumoto, Keigo Higashino e Asako Yuzuki, bem como os realizadores de cinema Hiroshi Shimizu e Tai Katō.

A sua grande paixão sem pendor profissional é a música.

 

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