
A minha xitaca era um ventre verde onde a vida pululava em êxtase: flores inclinavam-se em reverência ao sol, tubérculos rompiam a argila como punhos de homens sedentos de luz, e Pituska, minha serpente-oráculo, deslizava entre as sombras, saciada de insectos dourados pela manhã.
A paisagem não era cenário, mas alma. As árvores — colunas de um templo antigo — abençoavam-nos com sombra e fruto. Eu, sacerdotisa inconsciente, vendia milagres colhidos ao acaso: mandiocas gordas, abóboras de ventre redondo, feijões que estalavam de vida nas cascas. Dormia sob o manto das estrelas, embalada pelo murmúrio do riacho e pela respiração lenta dos amigos.
Até que Ele chegou.
O agrónomo.
Sua viatura vermelha e negra cravou-se na terra como um punhal. Ao lado do meu calhambeque enferrujado — fiel cavalo de ferro nascido em ’96 —, parecia um animal de outra criação. Ele trazia nos olhos a frieza dos que medem o mundo em cifras, e nas mãos, projectos que cheiravam a tinta fresca e ambição.
— Modernizar. Expandir. Enriquecer.
As palavras dele tinham gume.
Consultei Pituska, enrolada na goiabeira como um bracelete vivo.
— Diz-me, serpente: ele fala em derrubar árvores, alargar o riacho. Promete colheitas que brilham como ouro.
Ela fixou-me com olhos de âmbar, lentos, profundos:
— O ouro dele é falso. Ngana Nzambi já te deu ouro verde, que não se conta em moedas. Tens fome?
— Não.
— Então por que trocarás o cântico dos pássaros pelo ronco das máquinas?
O agrónomo, impaciente, interpôs-se:
— Escutas uma cobra? Foi ela quem arruinou o Éden!
Pituska riu-se, um som de folhas secas arrastadas pelo vento:
— O Éden foi arruinado por quem trocou a eternidade por um só dia de poder. Violaram o código. Tu repetirás o erro?
Mas o homem falava em cifrões e tractores, e eu já me via ao volante do 4×4 vermelho, cortando estradas como uma faca em carne fresca.
A Queda:
As árvores tombavam como gigantes embriagados. O riacho, esticado até à exaustão, secou em grito mudo. A terra, violada por arados, sangrou nutrientes. Pituska partiu na véspera da primeira colheita fracassada.
— Eu avisei, sibilou, antes de sumir-se no capim amarelo. Violaste o pacto.
Sentei-me no cadáver da mulembeira — outrora altar, agora lenha. As lágrimas que derramei evaporaram antes de tocar o solo. O vento, outrora cantor, agora uivava um réquiem.
O Regresso do Demónio:
Ele voltou, trazendo novos números, novos venenos:
— Cavaremos o poço mais fundo! Pedirás empréstimos! Todos o fazem!
E eu, já coração esvaziado, obedeci.
Comprei o carro. A casa. A dívida.
Agora, a xitaca é um corpo doente: solo envenenado, água que fugiu, silêncio onde havia risos.
O agrónomo sumiu-se, levando seus carimbos e promessas.
Pituska não voltou.
E eu, aqui sentada sobre os escombros do meu paraíso, percebo:
O código não estava escrito em livros, mas no ritmo das estações, no bailado das folhas, no conselho de uma serpente sábia.
Eu o rasguei.
E o preço foi a minha própria alma.
Etelvina da Conceição Alfredo Diogo, conhecida no meio literário por Ngonguita Diogo é escritora angolana e circula entre a poesia e a prosa.
É membro da União dos Escritores Angolanos e da Academia de Letras do Brasil.
É Comentadora da Ordem dos Benfeitores Culturais da Humanidade pela Federação Brasileira dos Académicos das Ciências, Letras e Artes, É Embaixadora de África pela Academia Internacional dos Artistas e Poetas – AIAP, Membro correspondente da Academia de Letras e Artes da Praia Grande e Membro da Liga Africana e do Movimento Lev’arte Angola.
É Directora da Academia de Letras do Brasil para Questões Humanitárias no Continente Africano.
Tem sete livros publicados, participa em várias antologias nacionais e internacionais e tem um CD com poemas musicalizados.










