Cultura

O código de conduta | Ngonguita Diogo

Foto de Gene Gallin na Unsplash

A minha xitaca era um ventre verde onde a vida pululava em êxtase: flores inclinavam-se em reverência ao sol, tubérculos rompiam a argila como punhos de homens sedentos de luz, e Pituska, minha serpente-oráculo, deslizava entre as sombras, saciada de insectos dourados pela manhã.

 

A paisagem não era cenário, mas alma. As árvores — colunas de um templo antigo — abençoavam-nos com sombra e fruto. Eu, sacerdotisa inconsciente, vendia milagres colhidos ao acaso: mandiocas gordas, abóboras de ventre redondo, feijões que estalavam de vida nas cascas. Dormia sob o manto das estrelas, embalada pelo murmúrio do riacho e pela respiração lenta dos amigos.

 

Até que Ele chegou.

 

O agrónomo.

 

Sua viatura vermelha e negra cravou-se na terra como um punhal. Ao lado do meu calhambeque enferrujado — fiel cavalo de ferro nascido em ’96 —, parecia um animal de outra criação. Ele trazia nos olhos a frieza dos que medem o mundo em cifras, e nas mãos, projectos que cheiravam a tinta fresca e ambição.

 

— Modernizar. Expandir. Enriquecer.

 

As palavras dele tinham gume.

 

Consultei Pituska, enrolada na goiabeira como um bracelete vivo.

 

— Diz-me, serpente: ele fala em derrubar árvores, alargar o riacho. Promete colheitas que brilham como ouro.

 

Ela fixou-me com olhos de âmbar, lentos, profundos:

— O ouro dele é falso. Ngana Nzambi já te deu ouro verde, que não se conta em moedas. Tens fome?

 

— Não.

 

— Então por que trocarás o cântico dos pássaros pelo ronco das máquinas?

 

O agrónomo, impaciente, interpôs-se:

— Escutas uma cobra? Foi ela quem arruinou o Éden!

 

Pituska riu-se, um som de folhas secas arrastadas pelo vento:

— O Éden foi arruinado por quem trocou a eternidade por um só dia de poder. Violaram o código. Tu repetirás o erro?

 

Mas o homem falava em cifrões e tractores, e eu já me via ao volante do 4×4 vermelho, cortando estradas como uma faca em carne fresca.

 

A Queda:

As árvores tombavam como gigantes embriagados. O riacho, esticado até à exaustão, secou em grito mudo. A terra, violada por arados, sangrou nutrientes. Pituska partiu na véspera da primeira colheita fracassada.

 

— Eu avisei, sibilou, antes de sumir-se no capim amarelo. Violaste o pacto.

 

Sentei-me no cadáver da mulembeira — outrora altar, agora lenha. As lágrimas que derramei evaporaram antes de tocar o solo. O vento, outrora cantor, agora uivava um réquiem.

 

O Regresso do Demónio:

Ele voltou, trazendo novos números, novos venenos:

— Cavaremos o poço mais fundo! Pedirás empréstimos! Todos o fazem!

 

E eu, já coração esvaziado, obedeci.

 

Comprei o carro. A casa. A dívida.

 

Agora, a xitaca é um corpo doente: solo envenenado, água que fugiu, silêncio onde havia risos.

 

O agrónomo sumiu-se, levando seus carimbos e promessas.

 

Pituska não voltou.

 

E eu, aqui sentada sobre os escombros do meu paraíso, percebo:

O código não estava escrito em livros, mas no ritmo das estações, no bailado das folhas, no conselho de uma serpente sábia.

 

Eu o rasguei.

 

E o preço foi a minha própria alma.

 

fotografia de Ngonguita Diogo

 

Etelvina da Conceição Alfredo Diogo, conhecida no meio literário por Ngonguita Diogo é escritora angolana e circula entre a poesia e a prosa.

É membro da União dos Escritores Angolanos e da Academia de Letras do Brasil.

É Comentadora da Ordem dos  Benfeitores Culturais da Humanidade  pela Federação Brasileira dos Académicos das Ciências, Letras e Artes,  É Embaixadora de África pela Academia Internacional dos Artistas e Poetas – AIAP, Membro correspondente da Academia de Letras e Artes da Praia Grande e Membro da Liga Africana e do Movimento Lev’arte Angola.

É Directora da Academia de Letras do Brasil para Questões Humanitárias  no Continente Africano.

Tem sete livros publicados, participa em várias antologias nacionais e internacionais e tem um CD com poemas musicalizados.

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