Cultura

Sobre o filho de José | Tere Tavares

Ninguém perguntou seu nome. Aquele que vibrou mesmo antes da luz e morreria para melhorar o mundo. Não há motivo específico para que as coisas se transformem em pó, exceto que, talvez, não sejam fortes o suficiente para durar. São raríssimas as coisas que duram para sempre. E o sempre é também incógnito. Falível.

 

Ele diz: “Deixa que as convicções te sejam fatais. Na estrada não há exatidões com que possas tratar, nem membros artificiais para alcançar margens mais íngremes. Não te espantes com o que não está, em tua estante de memórias, gravado. O medo não se imprime nos que somam o sal dos dias. A sabedoria não está ligada ao que se quer, nem no que se crê, mas no que se faz. Olha, profundamente, para os teus atos e saberás do que és capaz. A confusão tem seu tempo para se desfazer. Percebe. Não há reis. Há quem se julgue rei. O que não invalida as tuas investigações. Há que varar dia e noite nesse palheiro sem óbvias agulhas. As pontiagudas que só vês quando extraem gotículas vermelhas das tuas procuras. Nada a revelar ou relevar. Mas por velar. Mesmo que, ao rezares, eu seja o primeiro nome que te vem à mente. Barganhas a mesmíssima flagelação que condenas. Existem causalidades, não culpas. 

 

Proeza é passar batido e, batendo, passar como Plutarco quando nomeou Moralia à sua coleção de ensaios, [não houve harmonia prematura, mas as cordas adjacentes simultaneamente tocadas]. Duvida das questões resolvidas e das revolvidas questões. O espírito do mundo constantemente associado ao material é danoso e extensível porque assume todas as formas: causa permanente de todo equívoco que, mesmo quando transformado em sublimidade, permanece no centro de tudo o que é malévolo.

 

Talvez tu queiras que o menino ganhe um brinquedo e tudo se feche em duas vias paralelas e saciáveis. Para lê-las, [como eu li Madalena, para citar uma apenas], socializa o jeito impassível com que a menina se ajunta ou se ajusta ou se ajeita quando cai. O que poderia ser amparo e aparamento, é queda. Nada é mais triste que essa sina de ser e sentir-se batendo à porta que não se abre. Só permanece destrancada aquela em que todas as famílias se maltratam, se escusam e se recusam. Se tu desceres a montanha cantando e te espatifares nas sinuosidades é porque te distraíste. Todos chegam ao vale, todos, no final, se apercebem na cova com o corpo trafegando por fios subtraídos das sílabas, como filetes de samambaias. Ninguém consegue se prender ou se suspender num único galho. O homem da areia, lembra-te, se fez pó, ainda mais pequeno por nunca ter ouvido o som da flauta sagrada. 

 

A visão demasiada é um equívoco e pode ser punitiva, concedendo um falso dar-se a ver, no lugar da voz.  A disfarçada não compreensão é a sutileza do menosprezo e do escárnio como asas inquebrantáveis e manejáveis a distâncias astronômicas. Sejam cervos ou servos, ambos continuam atirando no alvo mesmo quando erram. O pensamento holístico é o princípio que nos torna mais humanos. Sejamos e ensejemos o justo que arranca as mordaças e desce em fogo líquido e macera e renasce em vulcões. Nesta noite em que o céu chora as estrelas, chorarei com ele e contigo.

 

Há tantos ventos oscilando as pontes suspensas por arcos sem pêndulos, assim como existem os que sofrem toda uma vida sem aprender lição alguma! A nova língua está na ponta da língua, mas ainda não nasceu. Das conchas colhidas para as tuas mandalas. Das corridas pelos vãos infindáveis que a escrita te deixa para que enfeites as dobras da estante – a tua própria consciência. A mulher que imaginas morta. Sou eu”.

 

Tere Tavares nasceu em São Valentim, RS, é poeta, contista, ensaísta e pintora. Desde 1983 reside em Cascavel, PR, Brasil. É autora de onze livros publicados: “Flor Essência” (poesia 2004 ), “Meus Outros” (poesia 2007), “Entre as Águas” (contos 2011), “A linguagem dos Pássaros” (poesia Editora Patuá 2014), “Vozes & Recortes” (contos Editora Penalux 2015), “A licitude dos olhos” (contos Editora Penalux 2016), “Na ternura das horas” (ensaios, Editora Assoeste 2017), Campos errantes (contos Editora Penalux 2018), Folhas dos dias, e-book (ensaios Selo Ser MulherArte Editorial, 2020 ), “Destinos desdobrados” (contos, Editora Penalux, 2021) e “Diário dos inícios” (poesia, Metanoia Editora, Selo Mundo Contemporâneo Edições, RJ).

Participante de cinco coletâneas, categoria contos, editadas em Portugal: “A arte pela escrita III” (2010) “Cartas ao Desbarato” (2011), “A arte pela escrita IV” (2011), “A arte pela Escrita VIII” (2015), e “A arte pela escrita IX” (2016). Consta com trabalhos de prosa e poesia nas “Antologias Febraban” (2007) e (2009),  “Saciedade dos Poetas Vivos” Vol 11 (2010) em “Blocos onLine”, “Contologia” da Revista “Arraia PajeurBR” 4, (2013), “Antologia Poética 29 de abril o Verso da Violência” (Editora Patuá 2015)”,  “Sobre lagartas e borboletas” (Selo Editorial Scenarium 2015), “Aquafúria – Uma antologia de Poetas Sedentos” (2015), “Diversos –Poesia e Tradução- Edições Sempre em Pé”, PT (2016),  I Antologia Digital de poesia “Porque somos Mulheres” da Revista Ser MulherArte (2020), Antologia Selo Off Flip 2020 “Parem as Máquinas”, Conto, Poesia e Crônica, Antologia Selo Off Flip 2021 Conto, Poesia e Crônica.

Conta com publicações em mídias eletrônicas e/ou impressa: “Cronópios”, “Histórias Possíveis”, “Blocos on line”, “Musa Rara”, “Diversos Afins”, “Germina – Revista de Literatura e Arte”, “Escritoras Suicidas”, “Mallarmargens – Revista de poesia e arte contemporânea”, Revistas “Fénix-Logos”- PT e “EisFluências”- PT, Revista “Soletras” de Moçambique, Revista “Vitabreve” – Revista de Arte e Cultura, “Acrobata”, “Amaité Poesia & Cia”, “Fotos e Grafias”, “Escrita Droide”, “Quatatê: Página Brasileira de Poesia do mundo”,Revista Ser MulherArte”, “ Ruído Manifesto”, “Revista Cultura-e”, “Jornal Relevo – Impresso”, “Recanto do Poeta – ICASAA” . Foi convidada, em 2018 para dar entrevista ao “Como eu escrevo”, e, em 2020 para o “Café Pós-moderno” da “OBVIOUS”, sediada em Portugal, PT. Em 2020, teve diversos textos publicados no Museu da Língua Portuguesa: Projeto “A Palavra no agora”, 2020. Integra a Academia Cascavelense de Letras.

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