
A BUSCA DO AMPARO
Deixem-me ler as cartas dos mortos,
perder-me do tempo
onde as peles falam,
sentindo a visceralidade do silêncio
(Quando morremos,
o Mundo se fecha,
se imiscui da culpa.)
Eu reagiria talvez;
mas finjo,
embalado por passos
despercebidos de vagar
Deixem-me ler as cartas dos mortos,
testemunhas do solo desejado,
onde a fortuna tem a marca dos seus pés.
Vitória, 08 de agosto de 2024
O CAMINHO DEITADO
Queria deitar o meu caminho,
me equiparar à terra
Mas o gemido dos tempos de indiferença,
das calúnias humanas,
dizia da tristeza das raizes
no descompasso da eternidade.
Vitoria, 15 de maio de 2024
FRONTEIRA
Só posso afirmar que sou o vento,
o conforto, a ilusão
Mas cesso com o suspiro
da primeira face que atinjo
Não sei retornar à boca de Deus,
me derramo antes
Dissolvo brumas,
sussurro silêncios
Permito-me o desperdício
lambendo as chamas
Beiro muros infinitos
buscando sobreviventes
E percorro os céus
em busca da fantasia das asas.
Vitoria, 17 de janeiro de 2024
HOJE E SEMPRE
Sou um caso de despertecimento,
e não me dei conta até hoje.
E não foi por desconhecer a sombra,
ou o pecado existencial.
Nasci com a mesma pele
que reveste a alma dos alienados.
(Na vida muitas coisas circulam
no plano do despercebido.)
Acerquei-me à beleza bem cedo;
ela sempre foi os meus olhos.
Mas, com alguma sorte,
pude tingir de realidade a arte
– e sobreviver.
Grande casa do eu sozinho,
em pé, neste acaso de um agora qualquer,
sou alguém que tenta dizer da destruição do Mundo para as paredes vazias.
(A memória das fotografias
é indiferente ao futuro de suas molduras.)
Querem que o poeta se cale,
já que delira em suas propostas de impraticâncias no paraíso dos filisteus.
Mas acordar na beleza,
sabendo que ela tem a insistência do verde
na multiplicidade acinzentada dos homens,
é sentir a urgência do grito.
Vitoria, 24 de novembro de 2024
DIÁLOGO COM O EU PERPÉTUO
CORO:
̶ Repousávamos sob as possibilidades ,
e estas cobertas eram uma oferenda
de impunidade.
UMA TENTATIVA DE CONSCIÊNCIA:
̶ Estar certo é um erro,
e um obstáculo que sempre constou
no contrato de sobrevivência.
CORO:
̶ Tecíamos nossa soberba,
e comemorávamos a nossa gloriosa
descoberta de sermos justos
e ausentes.
O HOMEM:
̶ Sou este mito cuspido
e me penitencio por sua ausência
no meu gozo de ser único.
CORO:
̶ Retornávamos ao conforto da régua
onde nos percebíamos imunes aos desvios.
O HOMEM:
̶ Por pouco me perdi no azul
do que não me pertence;
este ousado portal da poesia.
ARREMATE DA CONSCIÊNCIA:
̶ Uma porta não cabe no desmedido.
10 de dezembro de 2024










