Poesia & Conto

Poemas inéditos III | Jorge Elias Neto

Foto de Mihály Köles na Unsplash

A BUSCA DO AMPARO

Deixem-me ler as cartas dos mortos,

perder-me do tempo 

onde as peles falam,

sentindo  a visceralidade do silêncio

(Quando morremos,

               o Mundo se fecha,

se imiscui da culpa.)

 

Eu reagiria talvez;

mas finjo,                                                     

embalado por passos

despercebidos de vagar

Deixem-me ler as cartas dos mortos,

testemunhas do solo desejado,

onde a fortuna tem a marca dos seus pés.

                                                 Vitória, 08 de agosto de 2024

 

O CAMINHO DEITADO 

Queria deitar o meu caminho,

me equiparar à terra

Mas o gemido dos tempos de indiferença,

das calúnias  humanas,

dizia da tristeza das raizes 

no descompasso da eternidade.

Vitoria, 15 de maio de 2024

 

FRONTEIRA 

Só posso afirmar que sou o vento,

o conforto, a ilusão

Mas cesso com o suspiro

da primeira face que atinjo

Não sei retornar à boca de Deus,

me derramo antes 

 

Dissolvo brumas,

sussurro silêncios

Permito-me o desperdício

lambendo as chamas

Beiro muros infinitos

buscando sobreviventes 

E percorro os céus 

em busca da fantasia das asas.

Vitoria, 17 de janeiro de 2024

 

HOJE E SEMPRE

Sou um caso de despertecimento,
e não me dei conta até hoje.  

E não foi por desconhecer a sombra,
ou o pecado existencial.

Nasci com a mesma pele
que reveste a alma dos alienados.

(Na vida muitas coisas circulam
no plano do despercebido.)

Acerquei-me à beleza bem cedo;
ela sempre foi os meus olhos.

Mas, com alguma sorte,
pude tingir de realidade a arte
– e sobreviver.

Grande casa do eu sozinho,
em pé, neste acaso de um agora qualquer,
sou alguém que tenta dizer da destruição do Mundo para as paredes vazias.

(A memória das fotografias
 é indiferente ao futuro de suas molduras.)

Querem que o poeta se cale,
já que delira em suas propostas de impraticâncias no paraíso dos filisteus.

Mas acordar na beleza,
sabendo que ela tem a insistência do verde
na multiplicidade acinzentada dos homens,
é sentir a urgência do grito.



Vitoria,  24 de novembro de 2024

DIÁLOGO COM O EU PERPÉTUO 

CORO: 

̶  Repousávamos sob as possibilidades ,

e estas cobertas eram uma oferenda

de impunidade.

UMA TENTATIVA DE CONSCIÊNCIA:

̶  Estar certo é um erro,

e um obstáculo que sempre constou

no contrato de sobrevivência.

CORO:

̶  Tecíamos nossa soberba,

e comemorávamos a nossa gloriosa 

descoberta de sermos justos

e ausentes.

O HOMEM:

̶  Sou este mito cuspido

         e me penitencio por sua ausência 

no meu gozo de ser único.

CORO:

̶  Retornávamos ao conforto da régua 

onde nos percebíamos imunes aos desvios.

O HOMEM:

̶  Por pouco me perdi no azul

do que não me pertence;

este ousado portal da poesia.

ARREMATE DA CONSCIÊNCIA:

̶  Uma porta não cabe no desmedido.

10 de dezembro de 2024

 

Fotografia de Jorge Elias Neto

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