
DOIS POEMAS
- MÁSCARAS
Espera‐se pouco do miolo que, de
si mesmo, cria o vazio vivo da
máscara no centro dos pesadelos,
na vibração dos signos alterados.
Já nada golpeia os laços frouxos
da contemplação. Recentra‐se a maré
no tempo que tudo leva. Quem corre
para os arcos detrás dos condenados?
Mais tarde, frente ao sol, novas máscaras.
Um pássaro renova canto e margens
sobre os frutos que emergem minerais.
Diante das cicatrizes na pedra
sem máscara sucumbe o antílope
ao golpe pleno dos pontos cardeais.
- DESASSOMBRO
no poema etérea luz
que aviva traços frágeis da
existência consumida
mais do que bênção no centro
da harmonia quebrada
diz réstia de desassombro
à romagem confrangida
não cuidemos que é ventura
singular num recomeço
enfermo da sementeira
prevalece um subterrâneo
credo à prova de qualquer
desordem na voz que agita
letais garras da cegueira
ouve‐se no contorno dos
signos murmúrio fino
da palavra iridescente
agora que o vento brada
sôfregas urgências de um
cárcere exposto onde
vibram clarões no poente
in No Coração dos Desertos e outros Oásis (Rosa de Porcelana)
REGINA CORREIA
Maria Regina Fernandes Correia, luso-angolana, é licenciada em Filologia Germânica, pela Faculdade de Letras de Lisboa. Foi professora do ensino secundário em Angola e em Portugal e docente de língua e cultura portuguesas na Alemanha. É autora de prefácios e recensões públicas de livros bem como de recitais poéticos, sobretudo junto de instituições cabo-verdianas, e membro da Associação Portuguesa de Escritores (APE). Publicou os livros de ficção Os Enteados de Deus (1990 – Prémio Revelação de Ficção da Cidade do Montijo/APE) e Uma Borboleta na Cidade (1999), e os de poesia Noite Andarilha (1999), Sou Mercúrio, Já Fui Água (2012), Conjugação de Mapas (2021 – Melhor Livro de Poesia, ZL Books, Rio de Janeiro) e No Coração dos Desertos e Outros Oásis, pela Rosa de Porcelana Editora.










