
Nessas horas lentas e vazias, sobe-me da alma à mente uma tristeza de todo o ser, a amargura de tudo ser ao mesmo tempo, uma sensação minha e uma coisa externa, que não está no meu poder alterar. (Fernando Pessoa, O livro do desassossego)
À Jeníe Cabral,
que descansou de sua agonia diária.
Acho uma falta de respeito toda essa demora. Já nem sei há quanto tempo estou nessa sala de espera e o médico não me chama. Sem falar no meu corpo: já me doem as pernas, as costas estão dormentes e as mãos formigando. Não adianta mais esfregar, já estou esfregando há horas, e elas formigam, e nunca param de formigar.
Quero ir ao banheiro, mas toda hora em que tento me mexer, essa mulher quer me acompanhar. Será que é tão difícil entender que não quero companhia? Nem tento mais ser educada. Já xinguei. Sim, já xinguei e ela nem ligou! Ficou sorrindo e ainda tentou me abraçar! Chega! Basta! Eu não quero um abraço! Eu não quero mais essa consulta. Eu quero ir para casa e descansar de tanta espera.
– Quero ir embora.
– Espera só mais um pouquinho…
Mais um pouquinho? A minha mãe já deve estar em casa me esperando e com certeza está preocupada.
– Eu preciso ligar para a minha mãe. Ela nem sabe que eu estou aqui!
– Agora não podemos ir, está chovendo muito. Quer deitar um pouquinho?
– Não quero deitar, quero ir embora.
E quer saber? Eu vou agora. Não preciso de ninguém para ir. Onde está a minha bengala? Onde está minha bolsa? Não estou conseguindo me levantar…
– Quer ir ao banheiro?
– Eu quero ir embora!
– Eu vou ligar para o seu filho vir te buscar, tá? Deita um pouquinho enquanto ele não vem.
Eu não vou deitar! Quero ir embora. Meu marido vem almoçar e não tem nada pronto!
– Vai preparar a mesa. Meu marido vai voltar do trabalho a qualquer hora.
– Ihhh, ele não volta mais não! O seu marido já morreu, ó… faz tempo!
Como? Meu marido já se foi e ninguém me contou? Eu sou forte, eu sou muito forte! E posso suportar receber essa notícia! Não podiam fazer isso comigo! Ai, as minhas mãos não param de formigar… Porque será que esse médico não me chama?
– Eu não vou esperar mais! Se você quiser ficar, que fique! Eu vou embora agora! Pega ali a minha bengala.
– Calma… vem, vamos deitar um pouco.
Só vou deitar porque estou muito cansada. Senão pegava um taxi e ia para a igreja. Os casais já devem estar me esperando.
– O Padre Jaime já voltou da viagem?
– Padre Jaime? Eu não sei…
– Para onde será que ele foi? Ele viajando e eu aqui nessa casa… Sabia que os donos dessa casa gostam de tudo muito bem arrumado? Não gostam de nada fora do lugar!
Também com essa bagunça. Eles vão se zangar, e muito quando chegarem. A cozinha deve estar toda bagunçada….
– Sabia que ninguém me deu comida hoje? Estou morrendo de fome!
– Mas a senhora já comeu… e muito bem, hein?
– Eu? Não! Hoje ainda nem toquei numa comida!
– Você não pode comer de novo. Acabou de jantar. Quer uma água?
– Era só o que me faltava, passar fome! Eu vou ficar aqui quietinha… será que ninguém vai me levar para a consulta?
Daqui a pouco minha mãe chega do trabalho e não vai me encontrar em casa. Ela vai me procurar e ninguém vai saber aonde estou.
– A minha mãe sabe que eu ainda estou aqui?
– Sabe sim!
– O que estamos esperando? Eu quero ir para a minha casa, agora!
– Mas a senhora está em casa.
– Eu mesma não! Eu nem posso ficar aqui! Vamos logo!
Onde é a porta desse lugar? Não fico aqui nem mais um minuto!
– Olha quem chegou, a sua filha!
– Essa aí? Minha filha não é não!
– Oi, mãe, esqueceu de mim? Vou dormir com você hoje!
– Então tá, né?
É cada um mais doido do que o outro. Nunca tive filhos… Ainda nem casei… Mas ela é até bonitinha! Quero ir pra cama, estou com sono.
– Minhas costas estão doendo! Quero deitar um pouco.
– Deixa que eu te levo, mãe.
– Ainda bem que você chegou. Ela ainda nem me deu comida. Estou com fome…
– É mesmo, mãe? Mas que malvada, ela!
– Ainda bem que você está aqui!
– Vou pegar água para você tomar os seus remédios e já vamos dormir.
– Vai dormir sem me dar um beijo?
– Claro que não, mãe!
– Boa noite. Eu te amo.
– Eu também te amo, mamãe.
– Onde ela foi?
– Ela já volta. Está chovendo muito. Acho que a senhora vai ter que dormir aqui.
– Dormir aqui? E o meu marido? Ninguém sabe que estou aqui. Liga para ele!
– Vou ligar.
Vou para o quarto, estou com sono. Cadê a minha bengala?
– A senhora vai aonde?
– Vou pegar minha bolsa.
– E pra quê precisa da bolsa?
– Ué, vou para o trabalho. Já são quase oito horas e vou perder o ônibus. Meu marido já saiu?
– Já saiu sim. E disse para a senhora esperar aqui. Ele foi comprar pão e já vem.
– Então faz um café.
***
(No final do dia, quando o sol estava indo embora, minha mãe vivia um momento de desespero. Todos os dias as mesmas perguntas e as mesmas preocupações. Hoje ela não está mais entre nós, finalmente descansou de sua agonia diária. Dedico esse pequeno fragmento da vida de uma pessoa portadora de Alzheimer para todos que viveram e que ainda vivem esse maelstrom que se cria na cabeça de quem amamos.)
Joana Cabral é Mulher, mãe, leitora, escritora, dramaturga e empreendedora. Licenciada em literatura brasileira e portuguesa. Autora dos livros Fragmentos do Desencontro (2010) Editora Pedro e João – SP e Culpas e Cólicas (2012) Faces Editora. Recebeu o prêmio Osman Lins de Contos, pela Fundação Cultural da Cidade do Recife em 2005. Autora do musical Entremundos, (2015), Adaptou O Capitão e a Sereia, de André Neves, peça vencedora do Edital Viva a Cultura (2016). Autora do Espetáculo Chá com Saramago, montado em Guimarães, Portugal (2018).










