
CÉU UTÓPICO PARA FAMÍLIA AMARELA
família, pano de parteiras
e toalha de mesa
rasgada
és a única que carrego
na ausência da mãe
estranho os sobrenomes em árvores
que os formulários de carreira exigem
para sondarem meu pedigree
se sou joão-de-barro
ou se sou joão-ninguém
pedem-me isto e aquilo
e vendem-me um apartamento micro:
que eu não seja prolífico em filhos
nem transgrida os quadrados
que eu seja dado a prazo
como quem confere paraísos ao relento
margens de um horizonte pré-determinado
tudo quanto flui seja morno e destroçado
que não tenham portos os postes da noite
no mais, insistem que eu banque
o previamente imputado
amanheça inseto transformado
e esconda em algum lugar de mim
meus sonhos, minhas
libertinagens
que meu chip de compras
seja um título rastreado on-line
a escorraçar meu braço de ciborgue
que à noite eu faça ponto na zona
de conforto – depois de esbanjar afeto
num velho comercial de televisão
dois cliques e nos colocam na moldura
para estarmos lá, pendurados
em um banco amarelo
família, cifrão cortado
trago o teu riso congelado
folder,
utópica flâmula tremulando
aos poucos minha casa se retira
nas beiradas que prenunciam a distância
CARTA À FILHA
O mundo é sujo, filha, estende o teu vestido
e então por dois dias espera teu marido
se ele não vier, vive tua lenda
respeita a ti mesma e costura tua renda
Que dos maridos o inferno está cheio
o inferno, o Outro da ordem caseira
De muitas mulheres eu mesmo fui vampiro
eu mesmo fui o estrago, o pinto o trouxa o pato
Toda palavra pode ser mais doce
e algumas são tão doces quanto a passa
da madura fruta e refletida
Explode as palavras, e o silêncio
insiste em que trabalhe a teu favor
para ouvires o que nasce e pulsa em ti
PREPARAÇÃO
os homens estão limpando as canaletas
caiando o meio-fio dos dois lados
da rua
ainda não é novembro, mês em que também
se limpam os cemitérios e deixam as tumbas
brancas para visitas
é agosto, 02 de novembro é o dia de finados
15 de novembro é o dia da república
adiantado para outubro
agora os homens se alegram e limpam
as canaletas e os meios-fios
por onde descem os esgotos
que sepultavam as ervas das calçadas
desde há muito nossos avós limpam os cemitérios
para que os defuntos possam respirar e receber flores
em novembro
há dias em que se deve estar limpo
e colocar roupa de festa, um vestido de cor
é como se ressuscitássemos para colocar brilho nos olhos
antes de nos casarmos com a morte.
ANTONIO AÍLTON (1968) é poeta, professor e pesquisador na área de Crítica Literária. Tem 6 livros de poemas publicados, entre os quais alguns premiados, sendo o último A Camiseta de Atlas (2023). É atuante no panorama cultural da cidade de São Luís, Maranhão. Membro da Academia Ludovicense de Letras (ALL) e editor do site Sacada Literária.
e-mail: ailtonpoiesis@gmail.com
site: https://sacadaliteraria.com.br










