Poesia & Conto

Três poemas | Antonio Aílton

Foto de Chris Slupski na Unsplash

CÉU UTÓPICO PARA FAMÍLIA AMARELA

 

família, pano de parteiras

e toalha de mesa

rasgada

és a única que carrego

na ausência da mãe

 

estranho os sobrenomes em árvores

que os formulários de carreira exigem 

para sondarem meu pedigree

se sou joão-de-barro

ou se sou joão-ninguém

 

pedem-me isto e aquilo

e vendem-me um apartamento micro:

que eu não seja prolífico em filhos

nem transgrida os quadrados 

que eu seja dado a prazo

como quem confere paraísos ao relento

 

margens de um horizonte pré-determinado

tudo quanto flui seja morno e destroçado

que não tenham portos os postes da noite 

 

no mais, insistem que eu banque

o previamente imputado

amanheça inseto transformado  

e esconda em algum lugar de mim 

meus sonhos, minhas 

libertinagens

 

que meu chip de compras

seja um título rastreado on-line 

a escorraçar meu braço de ciborgue

que à noite eu faça ponto na zona

de conforto – depois de esbanjar afeto 

num velho comercial de televisão

 

dois cliques e nos colocam na moldura

para estarmos lá, pendurados

em um banco amarelo

família, cifrão cortado

trago o teu riso congelado

 

folder,

 

utópica flâmula tremulando

aos poucos minha casa se retira 

nas beiradas que prenunciam a distância

 

CARTA À FILHA

 

O mundo é sujo, filha, estende o teu vestido

e então por dois dias espera teu marido

se ele não vier, vive tua lenda

respeita a ti mesma e costura tua renda

 

Que dos maridos o inferno está cheio

o inferno, o Outro da ordem caseira

De muitas mulheres eu mesmo fui vampiro

eu mesmo fui o estrago, o pinto o trouxa o pato

 

Toda palavra pode ser mais doce

e algumas são tão doces quanto a passa

da madura fruta e refletida

 

Explode as palavras, e o silêncio

insiste em que trabalhe a teu favor

para ouvires o que nasce e pulsa em ti

 

PREPARAÇÃO

 

 

os homens estão limpando as canaletas

caiando o meio-fio dos dois lados

da rua

ainda não é novembro, mês em que também

se limpam os cemitérios e deixam as tumbas

brancas para visitas

é agosto, 02 de novembro é o dia de finados

15 de novembro é o dia da república

adiantado para outubro

agora os homens se alegram e limpam

as canaletas e os meios-fios

por onde descem os esgotos

que sepultavam as ervas das calçadas

desde há muito nossos avós limpam os cemitérios

para que os defuntos possam respirar e receber flores

em novembro

há dias em que se deve estar limpo

e colocar roupa de festa, um vestido de cor

é como se ressuscitássemos para colocar brilho nos olhos

antes de nos casarmos com a morte.

 

fotografia de Antonio Aílton

ANTONIO AÍLTON (1968) é poeta, professor e pesquisador na área de Crítica Literária. Tem 6 livros de poemas publicados, entre os quais alguns premiados, sendo o último A Camiseta de Atlas (2023). É atuante no panorama cultural da cidade de São Luís, Maranhão. Membro da Academia Ludovicense de Letras (ALL) e editor do site Sacada Literária.

e-mail: ailtonpoiesis@gmail.com

site: https://sacadaliteraria.com.br

 

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