
Em Angola, o mês de Setembro tem sido um período fértil em celebrações, sobretudo em matérias de natureza cultural. Esta realidade decorre do facto de, nesse período, assinalar-se o nascimento (17 de Setembro de 1922) e a morte (10 de Setembro de 1979) do poeta e político angolano António Agostinho Neto (adiante, Agostinho Neto).
Em Setembro, aumentam significativamente em todo o território nacional as actividades culturais promovidas por entidades públicas e privadas, com maior incidência para saraus, palestras, debates, declamações, exibições de peças teatrais, dentre outras actividades onde a temática centra-se, não somente na poesia e no pensamento, mas também na vida e obra do autor dos poemários “Sagrada Esperança” e “Renúncia Impossível”.
Evidentemente que o facto de estar em causa a figura do primeiro presidente da República de Angola, o homem que teve o condão de proclamar a independência nacional de Angola, cuja data de nascimento é celebrado como feriado e denominada de o dia do herói nacional, acaba constituindo um peso decisivo neste fecundo movimento cultural.
No entanto, em nosso modesto entendimento, este excessivo enaltecimento, sobretudo por parte de entidades políticas, acaba, em certa medida, por desfocalizar o resplendor do virtuosismo artístico do poeta, criando um ruído que dá azo a certas vozes dissonantes a colocarem em causa a pujança artística do poeta, quase sempre sem apresentarem argumentos técnicos objectivos bastantes para justificar a sua tese.
Por conseguinte, sem pretendermos ser arautos do princípio da unanimidade, pois, como dizia o escritor brasileiro Nelson Rodrigues, “toda unanimidade é burra. Quem pensa com unanimidade não precisa pensar”, julgamos, ainda assim, que a força da poesia de Agostinho Neto não precisa de arrimos políticos, para firmar seu lugar no espaço literário angolano e além-fronteiras.
É, pois, num ângulo desprovido do cariz político, e estritamente literário que nos propomos encarar a obra de Agostinho Neto, nestas breves reflexões. Para tal, servimo-nos dos pilares propostos pelo linguista e filósofo francês Adolphe Hatzfeld, para trabalhar a crítica literária. Tais pilares constituem, na verdade, quatro caminhos ou géneros de crítica literária, que se entrecruzam e são interdependentes, nomeadamente, a crítica estética, a crítica moralista, a crítica histórica e a crítica psicológica, esta última inseparável da primeira.
Entretanto, pela figura política que foi Agostinho Neto, quando avaliamos a sua obra, julgamos ser importante olharmos com bastante incidência para a crítica estética, de resto, a crítica puramente literária, onde a sua produção é considerada em si mesma, sem averiguarmos quem foi o autor, como viveu, em que tempo escreveu.
Voltando à perspectiva de Hatzfeld, in “A crítica literária, sua natureza e suas modalidades, editada em 1941, pela Argo Editora Lisboa, todos os géneros de críticas literárias, acima referidos, quando compreendidos no seu verdadeiro sentido e aplicados na justa medida, têm cada um a sua utilidade e interesse. Portanto, na obra de Agostinho Neto, esta realidade é bem patente, porquanto, como adiante veremos, cada um dos géneros pode servir de ferramenta de análise da sua obra literária.
- AS ORIGENS e PERCURSO
Referimo-nos acima que Agostinho Neto nasceu no dia 17 de Setembro de 1922, na aldeia de nome Kaxicane, Icolo e Bengo, Catete, uma região próxima de Luanda, a capital de Angola.
O facto de ter nascido de uma família de ambiente cristão, cujo pai era pastor metodista e a mãe uma professora do ensino primário, influenciaram na construção do seu perfil educacional, cujos valores se tornaram posteriormente decisivos no conteúdo da sua escrita.
Entre os anos de 1938 a 1946, cursou no liceu Salvador Correia em Luanda. Nesse período, começa a escrever textos e a colaborar em jornais locais, entre eles os jornais O Estandarte, O Farolim e O Estudante. Seus textos já abordavam temáticas directamente ligadas à política e às preocupações sociais, quer sejam sobre a realidade e ambiente no seu tempo em que vivia, como do espaço em que estava inserido.
Em 1947, deixa Angola para cursar medicina em Portugal, onde se formou no ano de 1958, na Universidade de Lisboa.
Em Portugal, destacou-se no Movimento de Unidade Democrática (MUD-Juvenil), e na luta antifascista, tendo sido detido em 1952 e de 1955 a 1957.
Foi cofundador do Centro de Estudos Africanos, do Clube Marítimo Africano e do Movimento Anti-Colonial (MAC). Casou com a cidadã portuguesa Maria Eugénia Neto, com quem teria três filhos, e regressou a Angola em 1959.
- Um olhar para a expressividade poética de A. Neto, como arte intemporal e a sua aplicabilidade no contexto da nova Angola
Se tivermos em consideração que a arte intemporal é toda a criação que transcende o tempo – e a poesia não foge à regra – então, é líquido afirmar que a poesia de Agostinho Neto, pelos elementos, pelos símbolos, pela forma de expressão de emoções pela mensagem que comporta, não está presa à época em que foi produzida.
Podemos identificar elementos de intemporalidade na poesia de Agostinho Neto, através da inter-relação entre a faculdade e o valor estético da sua produção poética e a função exercida pela mesma, ou seja, o comprometimento com a defesa de ideais sociais, culturais e políticos (ideais de liberdade), num momento histórico, não só para Angola, a colónia e espaço em que o autor estava inserido, para Portugal, a potência colonizadora, mas também para África e o Mundo.
A poesia de Neto é uma verdadeira representação da realidade vivenciada por ele e pelos seus. Com os seus escritos, Neto reflectiu e interpretou o mundo que o cercava, porém, não se limitando à rigidez da perspectiva estética dos seus defensores e teóricos, como foi Jean Duvignaud, mas sim abrindo portas para a construção de significados, criando mundos novos e imaginativos: os mundos ideias. No seu poema Havemos de Voltar, Neto retracta o regresso aos valores da África. O reencontro com as nossas culturas e tradições.
Outrossim, podemos ainda notar na sua obra a presença dos valores que nos remetem à teoria platónica, que estabelece um estreito laço entre o belo e o bem, numa perspectiva da sociedade em que viveu, onde imperava a exclusão. O belo é, por conseguinte, para Platão, sempre de natureza espiritual e está intimamente associado à verdade e às virtudes morais. Para além da ideia do belo estar intimamente relacionado ao amor (amor platónico).
Como corolário do que vimos afirmando, identificamos na poética de Agostinho Neto outros valores associados, tais como, de justiça, de liberdade, de ética, de sentimentos nobres e corajosos e de sabedoria africana.
Com a sua poesia, Agostinho Neto e outros nomes da sua geração tornaram-se os principais produtores de ilusões tangíveis, animadores de sonhos do seu povo, expressado nas suas artes as suas ideias e os seus ideiais, centrados na denúncia das injustiças sociais, culturais e políticas da época, um gesto que influenciou e exerceu um papel crucial no desfecho do processo histórico de Angola.
Entretanto, os valores e os fins que perseguem a poesia de Agostinho Neto não morreram com a independência de Angola, eles continuam bem vivos e são aplicáveis em novos contextos de opressão que, infelizmente, já não é colonial. Portanto, devem ser seguidos se quisermos fazer de Angola, de África e do mundo um espaço onde se viva sem os horrores da subjugação, da fome, da miséria e do subdesenvolvimento.
- Poesia de Agostinho Neto e o Movimento dos Novos Intelectuais de Angola
Foi nos finais dos anos 40 do século passado que um grupo de jovens angolanos lançaram o movimento dos “Novos Intelectuais de Angola”, MNIA, cujo lema era “Vamos Descobrir Angola!”, que tinha como objectivo a criação de uma literatura própria de matriz angolana, quebrando assim os laços com as imposições coloniais.
Neste contexto, Agostinho Neto e os seus contemporâneos, tais como António Jacinto, Viriato da Cruz e Mário António, todos eles poetas, acabaram sendo os rostos mais visíveis deste movimento e, consequentemente, da sua geração, denominada a “Geração da Mensagem” (1950-53).
Com uma poesia de pendor prosaico, Agostinho Neto aglutinava na sua obra dois elementos basilares: a inteligência artística, estética e a estabilização de uma consciência criadora nacional.
No seu livro mais referenciado, “Sagrada Esperança”, desdobra-se entre o Género épico e o lírico, com predominantes influências do neo-realismo, com um carácter ideológico marcadamente de esquerda, voltada para a realidade e, portanto, para as questões sociais, culturais, políticas e económicas pelo qual passava a sociedade, sobretudo os mais desfavorecidos.
No seu livro “A Renúncia Impossível”, que foi publicado a título póstumo, identificamos traços de existencialismo, onde a angústia, os ideais de liberdade e de responsabilidade, estão presentes, correspondendo àquilo ao que J.P. Sartre se referia: é na angústia que o homem toma consciência da sua liberdade, ou, se se prefere, a angústia é o modo de ser da liberdade como consciência de ser; é na angústia que a liberdade está em seu ser colocando-se a si mesmo em questão”.
Baseando-se no ensaio do escritor angolano Luís Kandjimbo, constante no livro A noção do ser, pode-se classificar a poesia de Agostinho Neto, sobretudo do livro Sagrada Esperança, em vários grupos temáticos, a saber:
- Poemas Libertários: “Adeus à Hora da Largada”, “Consciência”, “Assim clamava Esgotado”, “Noite de Cárcere”, etc.
- Poemas radicalmente líricos: “Um aniversário”, “Mussunda amigo”, “Um bouquet de Rosas para Ti”, “Para enfeitar seus Cabelos”, etc.
- Poemas de Relação do Homem Angolano com a sua Paisagem: “Caminho do Mato”, “Kinaxixi”, “O verde das Palmeira da minha mocidade”, etc.
- Poemas tematizados de Miséria Social: “Desfile de Sombras”, “Civilização Ocidental”, “Noite”, “Meia noite na Quitanda”, etc.
- Poemas panafricanistas: “Velho Negro”, “Comboio Africano”, “Na pele do Tambor”, “Massacre em São Tomé”.
Entretanto, o autor da classificação considera este um mero expediente de análise crítica, pois o livro, na sua macro estrutura, reúne poemas predominantemente épicos.
Na verdade, a poesia de Agostinho Neto radica numa poesia engajada, que actua em contraponto à ideia, muito difundida nos dias de hoje, de que a arte basta por si mesma, e seus adeptos apregoam de que a poesia, enquanto arte, não pode ser discurso, tem de ser neutra politicamente e cultivar, tão-somente, a beleza e o ritmo das palavras.
No seu poema “Confiança”, inserto no livro “Sagrada Esperança”, Agostinho Neto diz: As minhas mãos colocaram pedras nos alicerces do mundo, mereço o meu pedaço de pão! Esta é, pois, a realidade com que devemos olhar o contributo poético de Neto, não só para a poesia e a literatura angolana, mas para a de África e do mundo.
QUATRO POEMAS DE AGOSTINHO NETO:
Confiança
O oceano separou-se de mim
enquanto me fui esquecendo nos séculos
e eis-me presente
reunindo em mim o espaço
condensando o tempo.
Na minha história
existe o paradoxo do homem disperso
enquanto o sorriso brilhava
no canto de dor
e as mãos construíam mundos maravilhosos.
John foi linchado
o irmão chicoteado nas costas nuas
a mulher amordaçada
e o filho continuou ignorante.
E do drama intenso
duma vida imensa e útil
resultou certeza:
As minhas mãos colocaram pedras
nos alicerces do mundo
mereço o meu pedaço de pão!
CRIAR
Criar criar
criar no espírito criar no músculo criar no nervo
criar no homem criar na massa
criar
criar com os olhos secos
Criar criar
sobre a profanação da floresta
sobre a fortaleza impúdica do chicote
criar sobre o perfume dos troncos serrados
criar
criar com os olhos secos
Criar criar
gargalhadas sobre escárneo da palmatória
coragem na ponta da bota roceiro
força no esfrangalho das portas violentadas
firmeza no vermelho sangue da insegurança
criar
criar com os olhos secos
Criar criar
estrelas sobre o camartelo guerreiro
paz sobre o choro das crianças
paz sobre o suor sobre a lágrima do contrato
paz sobre o ódio
criar
criar paz com os olhos secos
Criar criar
criar liberdade nas estradas escravas
algemas de amor nos caminhos paganizados do amor
sons festivos sobre o balanceio dos corpos em formas simuladas
Criar
Criar amor com os olhos secos.
NOITE
Eu vivo
nos bairros escuros do mundo
sem luz, nem vida.
Vou pelas ruas
às apalpadelas
encostado aos meus informes sonhos
tropeçando na escravidão
ao meu desejo de ser.
– Bairros escuros
mundos de miséria
onde as vontades se diluíram
com as coisas.
Ando aos trambolhões
pelas ruas sem luz
desconhecidas
pejadas de mística e terror
de braço dado com fantasmas.
Também a noite é escura.
HAVEMOS DE VOLTAR
Às casas, às nossas lavras
às praias, aos nossos campos
havemos de voltar
ÀS nossas terras
vermelhas do café
brancas de algodão
verdes dos milharais
havemos de voltar
Às nossas minas de diamantes
ouro, cobre, de petróleo
havemos de voltar
Aos nossos rios, nossos lagos
às montanhas, às florestas
havemos de voltar
À frescura da mulemba
às nossas tradições
aos ritmos e às fogueiras
havemos de voltar
À marimba e ao quissange
ao nosso carnaval
havemos de voltar
À bela pátria angolana
nossa terra, nossa mãe
havemos de voltar
Havemos de voltar
À Angola libertada
Angola independente
Bendinho Freitas Miguel Eduardo nasceu a 25 de Maio de 1971 em Luanda. Jurista, licenciado pela Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto UAN e Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Recursos Humanos, pela Católica-Lisbon School of Business and Economics e Universidade Católica de Angola.
Foi Professor, tendo leccionado história em escolas secundárias de Luanda e Língua Portuguesa no Centro Pré-Universitário da mesma cidade. É funcionário público, quadro do Ministério da Energia e Águas, onde exerce o cargo de Director de Recursos Humanos.
É membro da União dos Escritores Angolanos (UEA). Publicou os livros “A Pitoresca Etnia das Palavras”, poesia, edição da UEA 2016 e “Silentes Vozes d’Árvores, poesia, edição da Mayamba Editora 2019.
Para além de trabalhar a poesia, dedica-se, paralelamente à produção da prosa, com colaborações ocasionais nos jornais angolanos, onde publica crónicas, contos, ensaios e artigos de opiniões.










