Poesia & Conto

5 poemas | Matheus Guménin Barreto

Foto de Wei Yu na Unsplash

Cuiabá

 

Perder a cidade na campina inexata
da memória.

 

Perder a cidade, os gestos de tios, os doces das avós,
                            a gritaria dos miúdos perder,
                            perder o cumprimento do
                            vizinho no mercado,
perder uma cidade e com ela uma infância,
                            a juventude, a vida adulta.
Perder um lugar que perde em si outros lugares,
perder o calor brando de um quarto azul,
perder uma cidade em cada um que parte,
em cada um que, em parte, mata
quando morre.

 

Perder inapelavelmente uma cidade,
mas pisá-la.

 

*

 

Tempo

 

Aquilo que possuo e me possui,
e que, se cerco, ergue cercos outros
em torno aos muros fracos, muros poucos
que ergui; aquilo que constrói e rui
meu corpo; que já traz numa só mão
meu corpo e aquela morte que é a sua
(se cada corpo nasce já com uma),
meu corpo e aqueles beijos que serão
os seus (se morre sempre sem dar todos);
aquilo, ainda, que me tira tudo
e tudo dá a mim; o que procuro,
mas que me encontra sempre e eu não encontro.
Aquilo, enfim, que dá-me o amor de um homem
de pau em riste – e nos apaga os nomes.

 

*

o que vale um poema

o que vale um poema
menos que uma greve menos
que o operário menos
do que um grito menos
do que a boca menos

do que um braço menos
que um poema vale um poema bem menos

 

mais vale um cão vivo
e (quem sabe?) uma república

 

*

 

Descasca das mãos o tempo
(cai mudo azul escuro),
esfarelado o tempo do que foi e já nem mais
tenta. Descascam dos olhos as tardes vermelhas
de maio. Descasca da boca um quase beijo
adiado e já não dado
mais. Descasca do corpo o corpo,
rastro sujo do que era, promessa
só feita.

 

*

 

(Quase) mortes

 

I.

 

rasgar em uma só madrugada
o que resta de uma infância: perdê-la sob o sol

 

II.

 

pegar a xícara como quem tem seus mortos
lavar as mãos como quem tem seus mortos
abrir a janela como quem tem seus mortos
mijar como quem tem seus mortos
dormir como quem já não dorme só mais
depois do morto inaugural

perder posse do que se era
depois do morto inaugural

perder o gesto que era apenas gesto irrepetido
não saudação
não pedido
não suborno do tempo

manchar irremediavelmente as manhãs

III.

 

penso naquilo que daria pelos amados –
penso em até que ponto –
penso naquilo que sem pedido daria –
naquilo que só com pedido –
naquilo que não daria

penso no inútil da oferta –
penso no precioso do inútil
da oferta –
na pouca mão pouca –
penso na fraqueza de minhas mãos fortes –
penso na fraqueza de minhas mãos jovens –
penso na fraqueza

na força desperdiçada destas mãos –
em si desperdiçada

 

penso naquilo que faria pelos amados –
penso naquilo que queria pelos amados –
penso naquilo que daria pelos amados –
e não dou

 

IV.

 

o descer de xícara de quem ainda tem mãe
(a certeza atrás da nuca, fixa e firme, anônima quase)
o tomar banho de quem ainda tem mãe
o pegar ônibus o dormir o namorar o trabalhar de quem ainda tem mãe

não se recupera?

fotografia de Matheus Guménin Barreto. Autor da fotografia: Fred Gustavos.

Matheus Guménin Barreto é poeta e tradutor mato-grossense (Cuiabá, 1992). É professor de Literatura Alemã na USP e editor na revista Ruído Manifesto. Publicou História natural da febre (Corsário-Satã, 2022), Mesmo que seja noite (Corsário-Satã, 2020), Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018) e A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017). Teve poemas traduzidos para o inglês, o chinês, o espanhol, o alemão, o catalão e o italiano; e publicados em revistas ou antologias no Brasil, na Espanha, no México, em Portugal, nos EUA e na China. Integrou, entre outros, o Printemps Littéraire Brésilien 2018 (França e Bélgica – Universidade Sorbonne), a Giornata mondiale della poesia 2022 (Itália – Universidade de Roma) e o Festival Riobaldo 2023 (Angola – Instituto Guimarães Rosa em Luanda). Publicou em periódicos ou em livros traduções de Bertolt Brecht, Ingeborg Bachmann, Goethe, Nelly Sachs, Paul Celan, Rainer Maria Rilke e outros. Entre os cursos que ministra esporadicamente está o “Verso vivo: introdução ao verso livre e ao verso fixo de Shakespeare a Criolo”.

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