Do livro ISSO NÃO É UM CHAPÉU: reflexões a respeito do Pequeno Príncipe. Brasil: LC Design & Editorial, 2024.
Autor Clécio Branco
Psicólogo Clínico e Filósofo
“Com o passar dos anos, os livros envelhecem ou, ao contrário, recebem uma segunda juventude. Ora eles engordam e incham, ora modificam seus traços, acentuam suas arestas, fazem subir à superfície novos planos.”
(Gilles Deleuze; Félix Guattari, Mil platôs)
“A humanidade precisa se humanizar.”
(Gabriela Mistral)
As crianças usam as coisas como meios — afinal, são os meios entre as coisas que levam as crianças ao mundo a ser descoberto. Como diz Gilles Deleuze, “os pais são meios” para as crianças entrarem no mundo, mas as saídas são elas mesmas que terão de criar. Nossos pais — algumas vezes, mais as mães — recorrem a artifícios para nos proteger.
Não vamos considerá-los perversos por essa razão, como a prática de inventarem histórias que causam medo. É da proteção das crianças que essas histórias estão falando. É que eles também têm medo de que possamos nos machucar. Por isso nos contavam estórias e histórias. Hoje em dia, os pais contam cada vez menos histórias aos filhos. Estão sem tempo. Lembro-me de muitas da minha infância, mas uma delas é inesquecível. Sei que nos foi contada para que não fôssemos longe demais, para que não nos perdêssemos ou não nos machucássemos gravemente. Em muitos casos, a entrada no mundo se faz com as estórias da infância, que funcionam como um liame, o visgo que estabelece a conexão entre as crianças — por sentirem medo ou por gostarem delas, as histórias mantêm as crianças unidas.
O contador, na verdade, cria um mundo de sentidos para as crianças. Mas os adultos, igualmente, não sobrevivem sem as estórias. Pensando bem, os mitos do começo do mundo, lógicos ou não, explicam o inexplicável, caso não houvesse essas narrativas. As estórias e os mitos são formas de dizer as coisas quando não havia testemunhas. Servem também para nos manter em segurança. Algumas vezes, também têm o objetivo de nos alienar do mundo real. Nesse caso, cabe olhar e escutar com desconfiança, tanto nos mitos como na literatura, nas novelas, nos contos de fadas ou nas fofocas.
A rigor, as histórias têm a função de organizar a sociedade, de criar vínculos sociais. Max Weber chama de coesão social; Émile Durkheim, de fato social. São as regras e os costumes que passam de pessoas para pessoas, organizando e sedimentando a vida dos grupos sociais. Vez ou outra, essas regras comportamentais são contadas em forma de narrativas que, nos contextos mais amplos, unem e criam as crenças de grupos e etnias. Os pais contam histórias, e as crianças pedem que as repitam.
Era uma vez… nos reunimos na sala, e ela nos disse:
— Prestem atenção nisto: tudo que vou dizer passa a ser lei nesta casa. E quem desobedecer corre o risco de morrer de uma forma terrível. O que vou falar se refere ao rio que vocês já viram e no qual devem estar loucos para dar uns mergulhos. Eu sei que o rio é lindo e que vocês nunca tiveram a oportunidade de mergulhar em águas tão azuis e frescas. Mas eu digo que é mais seguro para vocês ficarem nas lagoas aqui de trás.
Era uma fazenda e havia lagoas coloridas por causa da geologia do lugar. Lagoas avermelhadas, esverdeadas, róseas e azuladas. Nós, os meninos, muito mais do que as meninas, tínhamos grande curiosidade de saber as razões dos perigos do rio. O rio parecia inofensivo, com aquela água azul-clara e areia branca no fundo, onde cintilavam pequenos peixes-dourados. Um rio que desaguava nas areias de sua margem esverdeada não poderia ser perigoso. Mas ninguém ousava perguntar. Discordar seria um ato de desobediência em relação à autoridade daquela mãe que parecia tudo saber. Não perguntaríamos nada. Guardaríamos essa curiosidade por toda a vida. Ela tentou explicar do modo que achou melhor:
— Existe o rio e existem suas margens. Este lado de cá, onde estamos, é a margem segura. Deste lado, vocês podem comer as frutas, mergulhar no rio, pescar nas lagoas, brincar, subir nas árvores e tudo o que for possível inventar e que seja divertido e seguro. Mas vocês não podem atravessar o rio e subir na outra margem. Nunca poderão fazer isso.
Era noite, não havia luz elétrica na região e as chamas das lamparinas projetavam nossas sombras na parede. As imagens se misturavam à narrativa e, como se assistíssemos a um filme de terror, ouvíamos a respiração uns dos outros. Do lado de fora, o vento farfalhava as folhas das árvores, causando medo nos pequenos. A essa altura, nossos corações pareciam saltar do peito. E ela continuou naquele tom sério de quem sabe o que está falando:
— Do outro lado do rio, mora o Papa-Figo, um ser estranho que um dia já foi humano. Ele não morre nunca. Não se sabe bem o que ele é hoje, meio humano, meio bicho. Sofre de uma doença eterna, que o maltrata muito. Uma doença rara que faz os órgãos dos sentidos crescerem. Por isso ele escuta tudo o que se passa no mundo e não pode deixar de escutar. Ele sofre com isso, pois todos os ruídos do mundo estão dentro de sua cabeça. E, em dias tais, ele diz que é capaz de escutar até mesmo os pensamentos das crianças desobedientes. Além disso, desenvolveu em grande medida a visão, de modo que consegue ver através das paredes. Também lhe cresceu muito o nariz, o que lhe dá a capacidade de sentir cheiro a longas distâncias. Todo esse poder dos sentidos faz dele um ser muito perigoso. Além do mais, ele sofre com as muitas dores no corpo, porque continua desenvolvendo os sentidos. Grita durante a noite, de tanto barulho em sua cabeça, e de tantas visões que ele não quer ter. Mesmo fechando os olhos, ele não consegue deixar de enxergar o mundo por trás dos muros. Só existe uma coisa capaz de fazer cessar a dor desse monstro…
Nesse momento, fez-se silêncio na sala. Tudo que se ouvia era o som da natureza do lado de fora da casa. Pelas frestas das janelas, era possível ver o brilho esverdeado dos vaga-lumes na noite clara de lua cheia. Lá longe, o rio prateado sob o luar corria sibilante em meio à vegetação das margens. Um novo elemento era introduzido na paisagem imaginativa das crianças. Um ser estranho habitava algum lugar da outra margem do rio. Nossas mentes infantis, povoadas de indefinidos, imaginava aquela coisa estranha como se verdade fosse. Nada atrai mais a curiosidade das crianças do que indefinidos. Talvez ele estivesse uivando como lobo, por causa das dores de sua doença e da fome. Um misto de medo misturado com tristeza que só as crianças podem sentir invadiu o coração de cada uma. O que poderia diminuir a dor desse indivíduo?
— O fígado de crianças desobedientes — responde a mãe. — Por isso vocês não podem atravessar o rio e subir à outra margem. Ele nunca atravessa o rio. Nunca vem para a margem do lado de cá. As crianças que perderam o fígado estavam invadindo a margem do Papa-Figo. Ele só come fígados das crianças que atravessam o rio, por isso são as desobedientes que ele pega. Depois que o Papa-Figo come um fígado de criança, ele fica, por muitos meses, sem dor, e a doença o abandona por um tempo. Ele volta a ser humano, mas, com o tempo, torna-se, de novo, o monstro que, de fato, ele é.
A cena envolve a mãe e seus filhos, mas sem a presença do pai. Ela tem de fazer a lei sem o pai — uma versão contemporânea da psicanálise. Criar uma lei geral, uma estrutura mental de supereu, mas sem a figura paterna. O que, em síntese, existe nessa estrutura de lei? As três dimensões da linguagem lacaniana: o imaginário, o simbólico e o real. Na verdade, são três níveis de real.
O real imaginário não existe fora da mente das crianças, mas existe como subjetividade que rege o desejo de transgressão, e que também conduz as ações de ir e não ir até à outra margem do rio. O real é simbólico também, já que é em torno dele que se organizam a linguagem, as narrativas e o espaço em que as crianças vão crescer em meio ao mundo simbolizável, a natureza, os lagos coloridos e todo o processo de desenvolvimento. E na cena, ao mesmo tempo, tudo é real. Os dias que se passam no tempo trazem as angústias e as dores, e a vida acontecendo, com tudo que advém dela. A mãe não cria a lei geral — na verdade, ela mesma já a tem interiorizada; ela cria uma lei particular em circunstâncias particulares, pois a paisagem e a cena são únicas. A lei será interiorizada, cabendo aos filhos entrarem no mundo simbólico pela porta do imaginário. O imperativo categórico de Kant não se encontra nesse processo. Em suas palavras, o agir “de tal maneira cujo móbile de sua ação se torne lei, e lei universal”¹ tem caráter intuitivo. A lei particular, a interdição da mãe, tem caráter subjetivo. Ambas se complementam. Os dados foram lançados para eles viverem naquela paisagem bucólica ou fora dela.
— Essa é a história que eu tenho para contar a vocês. De agora em diante, a proibição de ultrapassar o rio se tornou lei nesta casa.
Dito isso, os mais velhos, então, deveriam cuidar dos mais novos. Afinal, a segurança de nossas vidas dependia da obediência àquela lei.
A história que as crianças tinham acabado de ouvir produziu um efeito bastante eficaz, e nós obedecemos à lei do rio. O brilho do lugar, porém, foi alterado pela suspeita de que o perigo não estivesse restrito à outra margem do rio, e que o poder do Papa-Figo pudesse atravessar o rio e as montanhas. Ele não apenas enxergava através das paredes; como um ser estranho, ele também podia ver, ouvir e cheirar ao longe. E a vida se torna bem insegura quando a realidade escapa ao controle da razão. Quando um ser se esconde por trás de tudo que é passível de controle, quando esse ser se transforma na causa e no limite de tudo que se deve temer e respeitar, é a vida dos indivíduos que se afasta daquilo que pode. Mas também é o que transforma uma coisa em objeto do desejo de todos — em nosso caso, a outra margem do rio.
A noite passou a ser escura e assustadora para as crianças. De repente, tudo havia escurecido, e uma sombra de insegurança despertava mais cuidado, ainda que estivéssemos do lado de cá, na margem segura do rio. Foi como se o último vaga-lume piscasse sua luzinha verde. Ninguém ousava ultrapassar a margem do rio azul. Desejar desobedecer — apenas desejar — já é suficiente para se sentir culpado e condenado.
Todos se recolheram — cada um em sua esteira de palha —, espalhados pela casa. As meninas eram cinco e ocupavam um dos quartos; os meninos, em número de quatro, ficavam na sala. Na verdade, o rio azul e o Papa-Figo, juntos, foram motivo de insônia para todos naquela primeira noite na fazenda. Exceto para a mãe, que dormiu tranquilamente, sabendo que, sob o manto do medo, sua ninhada se encontrava em segurança.
O dia seguinte amanheceu iluminado pelo forte sol do lugar. Finalmente, era possível caminhar pelo quintal, explorar os arredores da casa e ir mais longe, desafiando a tirania da onipresença do Papa-Figo. Quando não se localizam em um espaço determinado, aqueles olhos e ouvidos que tudo veem e escutam, é porque o tal ser pode estar em qualquer lugar.
Mesmo restrito a uma margem do rio, o lugar parecia inesgotável à exploração. Mas o proibido é sempre o mais desejado, porque a alma humana sempre deseja aquilo que ainda lhe falta — afinal, não se pode desejar o que já se tem. Deseja-se o proibido. As leis são criadas para se desejar o objeto proibido. Ou são proibidos e por essa razão se criam as leis? Trata-se de uma visão clássica do mundo: desejar o que ainda não se tem e entrar em estado de tédio ao possuí-lo. Há muito tempo, é assim que pensamos. Os seres originários, em O Banquete, de Platão, eram perfeitos e de nada sentiam falta. Então, Zeus os cortou ao meio com um raio, e as bandas foram espalhadas pelo mundo, de modo que uma metade não encontrasse a outra. Esse é o motivo de vivermos desejando algo que se perdeu. A outra metade, a plenitude perdida.
Nas estórias, nos mitos e nas alegorias, mas também na história, a questão do desejo se repete — e pertence a uma ordem política. O poder barra o desejo além da conta, com tristeza e repressão; os deuses e os homens de poder proíbem, torturam e matam em nome de alguma lei ou ordem, mas a questão é da ordem do desejo. Em O Banquete, é Zeus quem pune as criaturas livres e fortes, decepando-as ao meio. Dizia ele que, ao separar as criaturas em duas metades, elas viveriam tristes, buscando a outra metade. E é verdade: elas continuam procurando a metade que se perdeu. Mas não é assim com a questão crucial do desejo, desejar por não ter. Tudo indica que desejamos simplesmente — e não é porque sejamos faltosos. Por desejo ou necessidade, movemo-nos pelo mundo, tanto um organismo humano como um organismo animal: movemo-nos no desejo. Se algo nos falta, é porque nossa linguagem não dá conta de tudo o que desejamos. Os objetos são suficientes; a falta é do imaginário. Desejar o que se encontra distante decorre do imaginário, que nunca se realiza de forma plena. Uma coisa, uma pessoa ou um objeto que temos, não desejamos mais pelo fato de os possuirmos. E talvez por exclusão, nunca possamos ter as pessoas; apenas na fantasia, acreditamos ter a posse delas. Em outras palavras, a “lei” que proibia ir até à outra margem do rio nos fazia desejar transgredi-la, porque não poder explorar o desconhecido desperta o desejo de ter a coisa proibida. Sem a noção da lei, não haveria falta. A interdição da lei faz nascer o “querer transgredir” e é estruturante da formação dos sujeitos. A interdição é a negatividade que falta em nosso tempo; não é o caso, porém, de haver uma glória às interdições tirânicas. Longe disso, nós defendemos a interdição estruturante do psiquismo — essa mesma que, na psicanálise, organiza o aparelho, o inconsciente, o ego e o superego. Uma dose de negatividade faz o jogo de forças agir e reagir em nós, transformando-nos em sujeitos de desejo e de direito. Afinal, somos natureza e existimos nesse jogo de forças: o recalque primário — a síntese passiva do tempo no inconsciente —, o recalque secundário da interdição e as leis da sociedade. Vivemos em tempo de denegação da negatividade, modelo do sucesso, do desempenho e do cansaço. Nas emoções e na vida, contudo, as situações são mais complexas e mais interessantes, e vão além de números. A negatividade e a positividade não devem se abolir mutuamente. Veremos isso mais adiante. Seguirei o roteiro do livro O pequeno príncipe, obra que foi escrita em forma de fábula para o público infantil, mas que vai muito além de uma fábula. Trata-se de um livro sério, destinado a crianças e adultos que nunca deixaram desaparecer a criança que um dia foram. Até certo ponto, seguirei também a ordem dos capítulos. São muitas as edições e as traduções desse livro, inclusive na versão eletrônica (Kindle), a mais usada neste livro que escrevo. Espero que Saint-Exupéry me perdoe e me entenda por fazer comentários sobre sua obra — coisas que achei que poderiam ser ditas, mas que não eram bem o propósito dele dizer.
Nota
1 DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. São Paulo; Editora 34, 1995.
Referências bibliográficas
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. São Paulo; Editora 34, 1995.
KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. Lisboa: Edições 70, 2007.
Clécio Branco é psicólogo clínico, Mestre e Doutor em Filosofia. Autor das obras Ensaios de A a Z para mentes inquietas e Encontros com o Mestre I. Disponíveis na Amazon em versão Kindle e física.











