Cultura

O cravo | Silvia Quinteiro

Foto de Wander Fleur na Unsplash

 

A avó tinha um talento raro para as plantas. Tudo o que ela semeava nascia e crescia. Árvores, arbustos, legumes, flores, era indiferente.

 

Um dia, visitei-a na companhia de uma amiga alemã, que, num português arrevesado, me disse que ela tinha mãos verdes. Achei graça. Desconhecia a expressão, mas assentava-lhe que nem uma luva.

 

Quando comprei a minha primeira casa, após uma inspeção minuciosa, sentenciou que enquanto não tivesse plantas não tinha vida. Uma casa precisa de verde:   de varandas forradas a trepadeiras e canteiros flutuantes a derramar flores, de salas e quartos onde folhas verdejantes quebram a monotonia dos cantos.

 

Como não podia deixar de ser, rapidamente foi criada uma ponte rodoviária que permitiu transformar o meu novo lar num mini jardim botânico. Sabia eu e sabia ela que aquilo não ia acabar bem. Ainda assim, entregou aos meus cuidados o seu pequeno tesouro.

  

Cada flor transplantada, cada vaso colocado no sítio, eram acompanhados de recomendações: – Esta tem de ficar aqui, gosta de luz. – Esta não gosta de muita água.  Não foi, pois, por falta de instruções e de avisos que as pobres começaram rapidamente a definhar. Foi por falta de atenção. Por falta de cuidado. Já que o regador estava cheio, ia tudo a eito. Umas morriam da falta, outras da fartura.

 

De vez em quando, a avó aparecia lá em casa. Passava revista às plantas: olhava com ar desiludido as folhas baças e murchas, as flores mirradas, a terra seca ou demasiado encharcada. Fazia-lhe o diagnóstico e decidia:

 


— Estas vão ao hospital.

 

Levava-as consigo. Ficavam uns tempos internadas. Recebiam cuidados e paciência. Quando estavam recuperadas, voltavam.

 

— Enquanto eu cá estiver… – suspirava, dramática.

 

Às vezes, já nem regressavam as mesmas: trocava-as por outras mais resistentes. As primeiras já tinham sofrido o suficiente às minhas mãos.

 

Assim se passaram alguns anos, até que se deu o inevitável. A avó já cá não está. Deixou o gosto por uma casa cheia de vida. Deixou também dezenas de vasos e floreiras e um enorme quintal por cuidar. O talento, não. Levou-o consigo.  E, na sua ausência, mas decidida a manter e  estimar a viçosa herança, não tive outro remédio senão aprender.

 

No velhinho pátio, despontou hoje um cravo.

 

Os dias têm sido escuros. Nuvens negras prenhes de chuva, manhãs cinzentas de nevoeiro. Uma escuridão que vem do tempo e dos tempos e que se entranha no chão, nos edifícios, nas pessoas.   Dias de tempestade, de ventos e brados enraivecidos, de mau augúrio.

  

E, no entanto, nasceu um cravo. Um cravo rubro, persistente, teimoso. Nasceu onde não se esperava, num solo hostil, por entre as ervas daninhas, cujas raízes não soube eliminar, e as pedras de um muro em perigo. Um grito de vida a afrontar a intempérie: vibrante, robusto, jovem. Não pediu licença. Recusou a ditadura do calendário e dos canteiros: todas as épocas são suas, todos os chãos são seus. Único, aguarda pacientemente que os restantes botões o acompanhem e presta homenagem às mãos que o plantaram, que o regaram, e até às que não souberam cuidar dele como deviam, mas fizeram o seu melhor. Cresce apesar dos erros.

 

Amar e saber tratar não são sinónimos. Mas o cravo aí está. Resistente. Inteiro.


E se um dia deixar de brotar, se deixar de colorir os dias cinzentos,  saberei, saberemos todos, que não foi o inverno que o venceu.

fotografia de Silvia Quinteiro.

Silvia Quinteiro: Professora Coordenadora na Escola Superior de Gestão, Hotelaria e Turismo da Universidade do Algarve. Investigadora integrada do CIAC da Universidade do Algarve, onde coordena o grupo Lit&Tour. Colabora com redes e projetos internacionais, como a Rede Entremeio da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o projeto LITESCAPE.PT – Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental e o projeto RuTIC das Universidades de Valência e Barcelona. Cocoordenou a criação da Rota Literária no Algarve e foi membro das equipas que elaboraram a Rota Literária Saramago no Algarve e a RuTIC; Coautora do livro Turismo Literário – Construção e Exploração de Roteiros (PACTOR).

Qual é a sua reação?

Gostei
0
Adorei
0
Sem certezas
0

You may also like

Comments are closed.

More in:Cultura