Política

Justiça social, alteridade e os limites da moral seletiva | Nagib Said

Foto: Lyon Santos / MDS

Quis o destino que eu tivesse conhecido beneficiários do programa Bolsa Família em situações muito diferentes entre si. As constatações aqui apresentadas não nasceram de observação distante nem de leitura estatística. Elas se formaram ao longo de quase vinte anos de trabalho em projetos sociais desenvolvidos em comunidades da cidade do Rio de Janeiro, experiência que me colocou numa posição privilegiada ao permitir uma convivência íntima, contínua, sem mediações artificiais, com famílias reais, com rostos, nomes, histórias, contradições, expectativas e frustrações muito concretas. Conheci crianças da rede pública de ensino nessas comunidades, acompanhei seus percursos escolares, conheci seus pais, seus parentes próximos, ouvi trajetórias de vida marcadas por trabalho precoce, por interrupções forçadas, por deslocamentos, por perdas, e também pelas múltiplas estratégias de sobrevivência que foram sendo construídas ao longo do tempo para atravessar momentos de aperto, de desemprego, de adoecimento, de desamparo repentino, situações que não enviam avisos antes de chegar.

 

Nunca houve ali um retrato único da pobreza, nunca encontrei a figura homogênea e estereotipada que costuma aparecer nos discursos indignados e simplificadores presentes nas redes sociais, o que vi foram expressões diversas de vulnerabilidade, entrecortadas por contextos regionais, urbanos, familiares, por ciclos econômicos instáveis, e, em todas essas histórias o Bolsa Família aparecia como apoio mínimo num momento em que a escassez insistia em se impor como realidade.

 

É preciso dizer isso com clareza porque o preconceito se alimenta da abstração. Ninguém escolhe viver com seiscentos reais, ninguém organiza uma vida inteira em torno desse valor, ninguém sustenta uma família, paga aluguel, transporte, alimentação, gás, energia, material escolar, e ainda imagina que isso representa conforto ou segurança. Essa ideia só se sustenta quando o outro deixa de ser visto como pessoa concreta e passa a ser tratado como personagem de discurso, alguém inventado para justificar ressentimentos e disputas políticas.

 

O que muitas vezes não aparece nesse debate é o uso inteligente, criativo e absolutamente racional que as famílias fazem desse recurso limitado. Vi inúmeras vezes esse dinheiro funcionar como alavanca, como ponto de partida para pequenas atividades que ampliam a renda familiar, seja na compra de insumos para produção de alimentos vendidos de porta em porta, seja no fortalecimento de um pequeno negócio doméstico, seja no custeio mínimo que permite aceitar um trabalho informal, deslocar-se, produzir algo, manter-se ativo. Não se trata de consumo passivo mas da circulação estratégica de um recurso escasso, pensado para multiplicar possibilidades.

 

Quando escuto que o Bolsa Família estimula a acomodação, logo me ocorre estranhamento, porque essa frase só pode ser falada por quem nunca precisou reorganizar a própria vida depois de uma demissão inesperada, por quem nunca sentiu o chão desaparecer sob os pés, por quem nunca experimentou a angústia de procurar trabalho em um mercado saturado, instável, regionalmente desigual, onde as oportunidades não se distribuem de forma homogênea e onde o simples ato de procurar emprego já exige recursos que muitas vezes não existem.

 

Há ainda um aspecto sistematicamente ignorado, talvez por conveniência, talvez por desonestidade intelectual: o fato de que esse dinheiro, distribuído em milhões de lares espalhados por todo o território nacional, circula imediatamente na economia local, fortalece o pequeno comércio, sustenta mercados de bairro, padarias, feiras, farmácias, serviços, retornando ao próprio Estado sob a forma de impostos e atividade econômica. Não se trata de gasto estéril, mas de uma engrenagem de circulação que mantém vivas economias periféricas e regiões inteiras que, sem esse fluxo, enfrentariam retração ainda maior.

 

A pobreza no Brasil não tem uma única face, ela se manifesta de formas distintas no interior do Norte, do Nordeste, nas periferias metropolitanas, em regiões onde o trabalho informal é regra, em cidades pequenas onde uma única empresa define o destino de centenas de famílias. Reduzir essa complexidade a uma caricatura moral é um gesto político, é uma forma de produzir sentido que seja conveniente, de transformar um problema estrutural em falha individual, de deslocar o foco das responsabilidades coletivas para o comportamento de quem já está em posição vulnerável.

 

Existe uma narrativa muito bem construída, repetida à exaustão, que associa o programa à ideia de dependência crônica, e essa narrativa não surge por acaso. Ela é produzida, disseminada, amplificada por setores da extrema direita que encontraram nesse tema um instrumento eficaz de ataque ao governo, qualquer que seja ele, porque o objetivo é, tão somente, corroer a legitimidade de qualquer ação estatal voltada à redução da desigualdade, criando a impressão de que ajudar os mais vulneráveis equivale a premiar o ócio e o fracasso.

 

Creio que os motivos ocultos dessa ausência de empatia passam pela necessidade de manter distância simbólica entre “quem merece” e “quem depende”. Ao desumanizar o outro, cria-se uma sensação artificial de segurança moral, uma narrativa que tranquiliza consciências ao atribuir à escolha individual aquilo que é resultado de estruturas econômicas desiguais, instáveis e excludentes.

 

O que raramente se diz é que o principal objetivo de quem recebe o Bolsa Família é deixar de recebê-lo. Não há ali projeto de permanência. Não há orgulho em depender de um auxílio que mal cobre o básico, há sim, esforço cotidiano para sair dessa condição, há desejo de trabalho, há tentativa constante de reorganizar a vida, regularizar dívidas, e o programa, longe de desestimular isso, cria condições mínimas para que essa busca não seja feita em estado de desespero absoluto.

 

Trazer esse debate à tona neste período de Natal e de transição de ano não é casual nem retórico. É justamente quando somos convidados a falar de solidariedade, de amor ao próximo, de renovação, de compromissos éticos, que se torna ainda mais necessário olhar para além das nossas próprias dores, exercitar a alteridade, reconhecer no outro não um adversário moral, mas alguém emparedado por circunstâncias que poderiam ser nossas. Defender políticas de renda básica não é um gesto ideológico estreito, é uma escolha cidadã, profundamente humana e, para quem se reconhece na tradição verdadeiramente cristã, espiritualizada, coerente com a ideia de cuidado, de acolhimento e de responsabilidade coletiva.

 

Convém, por fim, recolocar a discussão onde ela sempre deveria ter estado. O impacto fiscal do Bolsa Família é modesto quando comparado ao volume de recursos drenados pela sonegação sistemática e pelos incentivos e renúncias fiscais concedidos a setores já privilegiados da economia, distorções que, somadas, superam em muitas vezes o custo do programa. Que 2026 chegue como um convite à maturidade política, à disposição de enfrentar os reais focos de desequilíbrio e à coragem de reconhecer que o problema reside, de fato, na naturalização das vantagens de uma elite cujos benefícios permanecem tão arraigados quanto raramente questionados.

 

Foto: Nagib Said

Nagib Said, carioca, sociólogo, músico, especialista em Gestão para Sustentabilidade e Responsabilidade Social, áreas em que atua profissionalmente há mais de 25 anos. Paralelamente, vem desenvolvendo e publicando reflexões e suas interpretações sobre os impactos deste momento histórico, marcado por profundas transformações comportamentais, culturais, políticas, sociais e ambientais no Brasil e no mundo.

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