
1.
Voltei à água
Porque a água estava lá… ainda.
A repetir o repetido de molhar.
Desejo o fresco molhado
Flutuo nela.
Por que razão a água não molharia?
Porque é que eu hesitaria
Em flutuar na sua superfície?
Ela molha a minha pele velha
A flacidez dos braços e das pernas.
Porque eu envelheci
Porque ela guarda o poder
Repetível e translúcido
De me beber
Lá…onde a matéria líquida esconde o céu uma vez e outra.
Porque ela sabe que molha
E que é líquida sempre líquida
E que é real quantas vezes quiser.
Para os velhos e para os novos, que a sentem, tanto faz
Água aberta.
Sinto-a na língua, ainda que molhada de outra água.
Não esqueço o prazer de flutuar
Porque ela adormece-me os olhos
E eu beijo-lhe a boca, deslizo
E não páro de nadar.
E /agora a água me agrega.
Nado para não a esquecer
Permaneço nela entre os demais
Explico porque voltei.
A água ignora-me
Porque é feita de água,
E molha-me durante
Todo o tempo que nela permaneço.
Porque estas ondas não são para surfar
Mas para salpicar o Ar
O Ar que deixa de ser seco.
Molham o silêncio
E cuidam-me da pele sem viço
Ensinam-me a estar quieta.
2.
Água, três golfinhos brancos dormindo numa onda
No sal quase animal, alimento alienado
Na minha barriga, algo pulsa lento, e os intestinos
Sobem-me às têmporas. E a água
Molha-me os ossos. E os ossos
São uma espécie de água sólida. Uns sinos
Estrídulos adentro da pele.
Por causa da bondade desta água
Talvez os ossos possam ser nenúfares.
Os golfinhos vestiram-me um vestido branco,
Cor que me fica mal,
Porque a juventude não se esqueceu de envelhecer.
Mas o branco torna a água mais fresca
Esquecida e dedicada. Absorve o vento
Dá-me silêncio de flores opíparas
Suavidades de látegos de seda
A espessura fresca do algodão derramado.
O apagamento submerge
O piar aflito / convulso das gaivotas.
As gaivotas dedicadas aves do nada
Reorganizam as nuvens
Para que um céu tão fresco como a água
Me adorne a pele
Tranquila e inteligente.
Água dos instantes
Branda e forte
Aberta por inteiro
À memória infantil
Copo cheio
Gelado e vivo.
Não me preocupa
O golfinho expectante
Que me olha.
O corpo está tão sereno.
Continuo o banho
Da água satisfeita
Da imensidão clara
Que molha as palavras
Que servem para a descrever.
Volto à água
Aos alfaiates de perna longa
Ao golfinho
Que me olha expectante.
Quando mergulho
Ele mergulha também
E cruzamos os olhares
Na água por… instantes.
Numa onda, os golfinhos sussurram ruidosos, alegres e vivazes.
Eu estou contente por estar molhada, nadei horas
Dentro de uma onda, misturando a frescura da água
Com o cheiro desértico da areia.
Acompanho em SEM FALA A FALA silêncio o silêncio dos golfinhos
Eles brincam fingem imitar as ondas.
Mais daqui a pouco também eu vou tentar imitá-las!
3.
Na sacada das ondas
Virei-me para baixo e subi outra vez
Em forma simples de golfinho
Simétrico. Com ele, o expectante
A tentar imitar-me
E eu a subir e a descer na onda.
Na sacada das ondas atravessei janelas fendas corais
Flores de primavera tardia.
E os olhos do golfinho que me seguia.
E se tivesse algum dia aprendido
A contar ondas, tê-las-ia contado
Com imensa satisfação de ser
Água, onda, tempo
Subindo na sacada das ondas.
Água, tu és fresca
Àgua, tu és líquida
Não vou esquecer.
4.
Quem nadou entre a onda 100 e onda 1000
Quem nadou
Dentro das curvas das ondas
Colhendo os redondos círculos
E as espirais triviais?
Nada nas ondas perenes
Que caminham sem pés
Na fresca lentidão do mundo!
Molha as rochas secas e a areia
Que um qualquer golfinho sem nome
Vai esquecer.
Aqui estão as ondas que nadam
Os golfinhos espertos e cadentes
Que sabem falar com o mar
E ao mesmo
Tempo
São Ar e todo.
A água vai voltar
A água está ainda
A água volta porque ainda está.
Volta entre o golfinho 100 e o golfinho mil
Cruza os olhos nos movimentos
Dos que nela volteiam,
(molha-me oh água, eu sei que é isso que queres fazer!)
Na ampla vastidão que te define
São mais as pedras que cobres
Do que aquelas que destapas.
E o meu cérebro é líquido
Metade mar metade rio
E o espírito acelera o movimento
É um som silêncio o teu bater
Que me aligeira a alma
Me apaga as lágrimas
E me beija lento.
As ondas não estão vazias
O cheiro do sal cobre a areia
Esta é a onda
Que me lava, molha, cruza
Dá membros à lassidão
Dá voz aos golfinhos
E sacode o vento!
Água fresca, engolida, jardim aberto
Não nos deixes de molhar, submergir
Molha-nos os pés e a cabeça
Ensina-nos o movimento das ondas
o pernoitar entre as rochas.
Lava-nos o pensamento
Fresca, límpida, saciante.
Lava-me o ventre, o sexo,
Os pés secos, as mãos
E o cérebro que te ama.
E banho-me em ti!
elisa scarpa
Elisa Scarpa nasceu a 7 de janeiro de 1964 e há-de morrer.











