Cultura

Quarta feira de água | Elisa Scarpa

Foto de Klara Kulikova na Unsplash

“Quarta feira de água_1”: colagem de Elisa Scarpa.

1.

Voltei à água

Porque a água estava lá… ainda.

A repetir o repetido de molhar.

Desejo o fresco molhado

Flutuo nela.

Por que razão a água não molharia?

Porque é que eu hesitaria

Em flutuar na sua superfície?

 

Ela molha a minha pele velha

A flacidez dos braços e das pernas.

Porque eu envelheci

Porque ela guarda o poder

Repetível e translúcido

De me beber

Lá…onde a matéria líquida esconde o céu uma vez e outra.

 

Porque ela sabe que molha

E que é líquida sempre líquida

E que é real quantas vezes quiser.

Para os velhos e para os novos, que a sentem, tanto faz

Água aberta.

Sinto-a na língua, ainda que molhada de outra água.

Não esqueço o prazer de flutuar

Porque ela adormece-me os olhos

E eu beijo-lhe a boca, deslizo

E não páro de nadar.

 

E /agora a água me agrega.

Nado para não a esquecer

Permaneço nela entre os demais

Explico porque voltei.

A água ignora-me

Porque é feita de água,

E molha-me durante

Todo o tempo que nela permaneço.

 

Porque estas ondas não são para surfar

Mas para salpicar o Ar

O Ar que deixa de ser seco.

Molham o silêncio

E cuidam-me da pele sem viço

Ensinam-me a estar quieta.

 

2.

Água, três golfinhos brancos dormindo numa onda

No sal quase animal, alimento alienado

Na minha barriga, algo pulsa lento, e os intestinos

Sobem-me às têmporas. E a água

Molha-me os ossos. E os ossos

São uma espécie de água sólida. Uns sinos

Estrídulos adentro da pele.

Por causa da bondade desta água

Talvez os ossos possam ser nenúfares.

Os golfinhos vestiram-me um vestido branco,

Cor que me fica mal,

Porque a juventude não se esqueceu de envelhecer.

Mas o branco torna a água mais fresca

Esquecida e dedicada. Absorve o vento

Dá-me silêncio de flores opíparas

Suavidades de látegos de seda

A espessura fresca do algodão derramado.

O apagamento submerge

O piar aflito / convulso das gaivotas.

As gaivotas dedicadas aves do nada

Reorganizam as nuvens

Para que um céu tão fresco como a água

Me adorne a pele

Tranquila e inteligente.

 

Água dos instantes

Branda e forte

Aberta por inteiro

À memória infantil

Copo cheio

Gelado e vivo.

Não me preocupa

O golfinho expectante

Que me olha.

O corpo está tão sereno.

Continuo o banho

Da água satisfeita

Da imensidão clara

Que molha as palavras

Que servem para a descrever.

Volto à água

Aos alfaiates de perna longa

Ao golfinho

Que me olha expectante.

Quando mergulho

Ele mergulha também

E cruzamos os olhares

Na água por… instantes.

 

Numa onda, os golfinhos sussurram ruidosos, alegres e vivazes.

Eu estou contente por estar molhada, nadei horas

Dentro de uma onda, misturando a frescura da água

Com o cheiro desértico da areia.

Acompanho em SEM FALA A FALA silêncio o silêncio dos golfinhos

Eles brincam fingem imitar as ondas.

Mais daqui a pouco também eu vou tentar imitá-las!

 

3.

Na sacada das ondas

Virei-me para baixo e subi outra vez

Em forma simples de golfinho

Simétrico. Com ele, o expectante

A tentar imitar-me

E eu a subir e a descer na onda.

 

Na sacada das ondas atravessei janelas fendas corais

Flores de primavera tardia.

E os olhos do golfinho que me seguia.

E se tivesse algum dia aprendido

A contar ondas, tê-las-ia contado

Com imensa satisfação de ser

Água, onda, tempo

Subindo na sacada das ondas.

 

Água, tu és fresca

Àgua, tu és líquida

Não vou esquecer.

 

4.

Quem nadou entre a onda 100 e onda 1000

Quem nadou

Dentro das curvas das ondas

Colhendo os redondos círculos

E as espirais triviais?

Nada nas ondas perenes

Que caminham sem pés

Na fresca lentidão do mundo!

 

Molha as rochas secas e a areia

Que um qualquer golfinho sem nome

Vai esquecer.

 

Aqui estão as ondas que nadam

Os golfinhos espertos e cadentes

Que sabem falar com o mar

E ao mesmo

Tempo

São Ar e todo.

 

A água vai voltar

A água está ainda

A água volta porque ainda está.

 

Volta entre o golfinho 100 e o golfinho mil

Cruza os olhos nos movimentos

Dos que nela volteiam,

(molha-me oh água, eu sei que é isso que queres fazer!)

Na ampla vastidão que te define

São mais as pedras que cobres

Do que aquelas que destapas.

 

E o meu cérebro é líquido

Metade mar metade rio

E o espírito acelera o movimento

É um som silêncio o teu bater

Que me aligeira a alma 

Me apaga as lágrimas

E me beija lento.

 

As ondas não estão vazias

O cheiro do sal cobre a areia

 

Esta é a onda 

Que me lava, molha, cruza

Dá membros à lassidão

Dá voz aos golfinhos

E sacode o vento!

 

Água fresca, engolida, jardim aberto

Não nos deixes de molhar, submergir

Molha-nos os pés e a cabeça

Ensina-nos o movimento das ondas

o pernoitar entre as rochas.

Lava-nos o pensamento

Fresca, límpida, saciante.

Lava-me o ventre, o sexo,

Os pés secos, as mãos

E o cérebro que te ama.

 

E banho-me em ti!

 

elisa scarpa

Elisa Scarpa: “Quarta feira de água_2”

Elisa Scarpa nasceu a 7 de janeiro de 1964 e há-de morrer.

Qual é a sua reação?

Gostei
1
Adorei
1
Sem certezas
0

You may also like

Comments are closed.

More in:Cultura