
O planeta arde. Nosso mundo arde em chamas visíveis e invisíveis. Arde alimentado pela cobiça, pelo individualismo, pelo consumo, pelo ódio e pela negação. Há quem diga que estamos em guerra uns com os outros, mas talvez a verdadeira e incômoda realidade seja que estamos em guerra contra a própria casa que habitamos, contra a Mãe Terra; e aquilo que arde de fato seja o chão sob nossos pés.
Ocorre que nesta manhã de vinte e três de setembro, em Nova Iorque, dois líderes falaram em nome de suas nações e do mundo. Lula, presidente do Brasil, abriu a Assembleia Geral das Nações Unidas exaltando os ideais que inspiraram a fundação da ONU e a importância de preservá-los diante da atual ameaça à sua autoridade e ao multilateralismo. Manifestou preocupação com os recentes atentados à soberania e à democracia; com a ingerência em assuntos internos; com o negacionismo climático; com sanções arbitrárias e imposição de taxas incompatíveis com o ordenamento da Organização Mundial do Comércio. O presidente brasileiro denunciou o avanço do extremismo, do autoritarismo, assim como o risco que representam às democracias. Não se omitiu sobre as guerras em curso, sobretudo o genocídio em Gaza, e manifestou preocupação com os efeitos indesejados resultantes da ação das plataformas digitais que têm sido usadas para semear intolerância, misoginia, xenofobia e desinformação.
Por sua vez, o presidente norte-americano usou parte significativa do tempo total de fala para elogiar seu país e a si próprio. Convicto e orgulhoso, desfilou bravatas, desinformação e informações imprecisas numa sequência insana que desafia a lucidez de seus ouvintes.
Em seu discurso, Trump defendeu políticas protecionistas, apresentou números inflados sobre o crescimento econômico dos Estados Unidos, reafirmou posições contrárias à atuação multilateral da ONU, e insistiu em uma visão de mundo centrada nos interesses de seu país, minimizando o impacto de suas medidas para outras nações. Destacou conflitos geopolíticos, reforçou críticas a adversários estratégicos como China e Irã, e manteve o tom beligerante que marcou sua gestão anterior.
Contudo, o ponto mais grave foi sua tentativa de relativizar ou negar os impactos das mudanças climáticas, desmerecendo os benefícios das energias renováveis e exaltando combustíveis fósseis como símbolo de prosperidade e soberania. Nessa escolha de ordem tanto comercial, política, econômica quanto ideológica, fica evidente um abismo entre a vontade de um presidente que não aceita a inexorável tendência de perda de hegemonia política e econômica e as necessidades de preservação do sutil equilíbrio dos mecanismos naturais que sustentam a vida.
E aqui voltamos ao início: a Terra arde. Não apenas em incêndios florestais ou em ondas de calor e enchentes, mas em guerras narrativas, em discursos de grandeza que propõem escalar a competição entre nações justamente quando somos desafiados a cooperar para a busca de alternativas urgentes capazes de frear o desequilíbrio resultante de um modelo de desenvolvimento insustentável.
Não deixa de ser surpreendente a ameaça de um conflito armado em escala global exatamente no momento em que a ciência alerta para o risco de ultrapassarmos o ponto de não-retorno. O desenvolvimento científico, material e tecnológico alcançado de tempos em tempos nunca se traduziu plenamente em bem-estar e qualidade de vida para a coletividade dos indivíduos. Contudo, hoje este paradoxo se mostra em seu ápice, já que provém justamente das redes sociais toda a força de negação de parcela da sociedade global assim como a legitimidade de governantes construída não pela razão, mas pela força de algoritmos que garantem apoio popular a decisões de desajustados governantes.
Há em todo o mundo uma batalha invisível travada, dia após dia, entre forças conscientes do perigoso limite com o qual flertamos e as forças que insistem em concentrar suas ações na busca de poder e riqueza, seja lá qual for o tamanho da conta que o lado mais vulnerável no mundo terá que pagar. De um lado está a ciência e o conhecimento que nos proporciona; governantes sérios que se dedicam a encontrar saídas por meio de complexos mecanismos multilaterais que põem à mesma mesa lideranças e diplomacias de culturas, políticas e economias tão diversas quanto seus idiomas. Do outro lado estão aqueles que insistem em enxergar o mundo por meio de paradigmas de consumo e apropriação ilimitada de recursos naturais escassos, mesmo que indispensáveis à vida. Bastasse isso, estes mesmos indivíduos, egressos de um “passado distante”, manifestam compromisso apenas com o poder, mesmo que seja por meio da guerra ou qualquer forma de barbárie como a promoção da fome, da escassez, de conflitos ideológicos ou até por meio de genocídios transmitidos pela internet.
Não vejo uma saída simples, mas acredito no que costumo denominar de “Mão Invisível da História”: creio que as mesmas forças que construíram a ponte entre a barbárie e a civilização se manterão atuantes, desenvolvendo saídas por meio da ciência, do conhecimento, da informação, da diplomacia e seja lá o que se fizer necessário. Neste processo, os extremistas que hoje semeiam o caos serão consumidos pelos seus próprios elementos de manipulação, colocando-se uns contra os outros, até que sejam estes os autores de sua própria ruína. Até lá, creio que teremos que conviver com os desequilíbrios naturais e inevitáveis danos colaterais, nada diferente do que já ocorre nos dias atuais.
Que as próximas gerações sejam mais eficientes do que fomos em pôr a ciência e a tecnologia a serviço da vida e do bem comum.
Nagib Said, carioca, sociólogo, músico, especialista em Gestão para Sustentabilidade e Responsabilidade Social, áreas em que atua profissionalmente há mais de 25 anos. Paralelamente, vem desenvolvendo e publicando reflexões e suas interpretações sobre os impactos deste momento histórico, marcado por profundas transformações comportamentais, culturais, políticas, sociais e ambientais no Brasil e no mundo.










