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A mulher com hemorragia: parte II | Clécio Branco

A mulher com hemorragia: parte II | Clécio Branco

Lamarck, considerado o pai da biologia, “interessou-se, como outros naturalistas de sua época, pela vida das plantas, sobretudo pelos fenômenos relacionados aos movimentos rápidos, típicos das chamadas sensitivas (plantas que respondem de maneira imediata e visível a determinados estímulos). Em particular, durante um longo período de sua carreira, ele mostrou um grande interesse pelo funcionamento exato do mecanismo de fechamento das folhinhas da mimosa pudica.15

 

A relação é que somos seres vivos, sensitivos e, da mesma forma, visualizamos e produzimos em nosso sistema nervoso (cada ser ao seu modo) a imagem do objeto, pessoa, situação e circunstâncias daquilo que nos restabelece forças e nos curam. As plantas tocam o vento, o sol, colhe a água da chuva em suas folhas em força de conchas e buscam nutrientes nas profundidades com suas raízes. As plantas fazem verdadeiras comunidades subterrâneas através das raízes. É o que se verificou em relação à Arvore da Fraternidade na França. Diz Mancuso:

 

“O senhor reconheceu a árvore à qual pertence o sistema rizomático que estamos estudando? É um choupo. ‘E…’ não creio que essa espécie tenha sido escolhida por acaso. O nome latino do choupo é populus, ‘gente’. O autor dessa impressão queria enfatizar o valor simbólico da árvore. Enfim, a planta do mundo é a árvore dos povos que abraçaram o espírito da revolução”16.


Somos seres vivos, com ou sem cérebro, reagimos às ameaças da existência por termos algo semelhante. A vontade de existir. Se as plantas se movem na direção do sol, nós humanos, também o fazemos. Buscamos o sol por necessidades fisiológicas, tanto quanto as plantas e outros seres. Nós reagimos à luz ou à falta dela, ao frio e ao calor. Além do mais, temos a comunicação tátil desde os nossos primeiros anos de vida. Segundo neurocientistas, “fibras de mecanorreceptores individuais transmitem informação a partir de uma área limitada da pele, denominada campo receptivo. Campos receptivos táteis têm sido determinados na mão humana utilizando microneurografia (…). Eles descobriram que, em seres humanos, assim como em outras espécies primatas, há diferenças determinantes entre receptores de tato, tanto em suas respostas fisiológicas quanto nas estruturas de seus campos receptivos”17. Tocamos as pessoas e as coisas, por necessidade de formar ideias do mundo que nos cerca. E, ao mesmo tempo, em que tocamos, dependendo dos motivos e desejos, áreas específicas de nosso cérebro se movem para atender as demandas do corpo. Alegrias e tristezas, alteração de humor, alívio e sensações de prazer podem começar com um toque. Às vezes na contemplação e observação da natureza. Somos tocados por palavras, gestos, olhares, sons e imagens. E o cérebro modula quimicamente nossos passeios por entre essas vivências. No caso da mulher que sofria de uma hemorragia, se tratou de um toque específico. Um toque movido pelo primeiro afeto espinosista, o desejo. Ela desejava ardentemente ser curada. A ideia do querer, que é desejo, está na primeira ordem dos afetos dessa mulher anônima nesse evento. Primeiro é preciso desejar infinitamente. Assim como uma aranha que tem em si um conatus, vontade infinita de existir, de permanecer no mundo existindo realizando a sua função, proliferando, crescendo até o limite do que pode. Por isso a aranha refaz a sua teia, mesmo que alguém desfaça na mesma proporção em que ela irá refazer. A vontade é suprema na aranha em refazer a sua teia. A teia da aranha é a manifestação de seu conatus, de sua vontade, de seu desejo que no caso da mulher de nossa história, é tudo isso, e também, vai incluir uma outra categoria – a fé. Todos os outros toques que aconteceram nesse evento não significaram nada. Foram “encontros” vazios de sentido. O corpo só pode saber o que pode quando é afetado, e não apenas por ter tido um encontro que, nesse caso é materializado nos toques físicos. Tem que que haver um afeto propulsor no encontro, desejo, vontade – no caso, incluiu a fé. Podemos tomar a fé por desejo, mas provisoriamente. A mulher não pode tocar no corpo de Cristo, não havia como chegar tão perto dele. Tinha gente demasiada na cena. O que distingue ela dos demais é o desejo ou a fé. Na situação, nem precisava tocar a mão ou qualquer outra parte de corpo de seu médico – um médico por excelência. O relato diz:

 

– “Ela foi por trás de Jesus e tocou na barra da capa dele, e logo o sangue parou de escorrer”.

 

Pronto! É tudo que precisava, um suave toque “na barra da capa dele” e afetar e ser afetada. Nesse momento o corpo descobre tudo que pode naquele caso. O poder de ser afetado por outro corpo, preenchido pelo afeto derivado do outro corpo em questão, associando a potência da fé. Naquele encontro, faz do encontro um bom encontro, no dizer filosófico de Espinosa. Nesse caso, o que é bom para um corpo? O afeto do bom encontro. Quem disse ser bom para o corpo? O corpo mesmo. Jesus se permite ser tocado em favor da saúde de uma mulher. Faz uma doação de sua energia vital, deixa ir parte de si em favor de uma anônima. No extraordinário texto, Massa e poder (Elias Canetti, 1995), ao analisar os tipos sociopsicológicos de massa, Canetti afirma:

“Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido. Ele quer ver aquilo que o está tocando; quer ser capaz de conhecê-lo ou, ao menos, de classificá-lo. Por toda parte o homem evita o contato com o que lhe é estranho. À noite ou no escuro, o pavor ante o contato inesperado pode intensificar-se até o pânico”18.

 

Segundo a versão de São Lucas, muitos esbarravam com o corpo de Jesus. Mas por que ele se importou com um único toque? Sua questão, “quem me tocou?”, “Alguém me tocou”, não foi de medo conforme é comum aos homens em meio a multidão ou massa como afirma Canetti. Jesus se diferencia dos homens comuns em cada situação em que se encontra com outros indivíduos igualmente humanos. Ele diz ter sido um toque de natureza específica, um toque que nem mesmo chegou à superfície da pele. Mas ele diz, “alguém me tocou de modo que, de mim saiu poder”. As possibilidades de tradução são muitas, poder, virtude, força, potência, vida etc. Foi um toque de leve, nas vestes, mas suficiente para subtrair potência que curou. Tocamos ou esbarramos por acidente em corpos em meio à massa, nada ou nenhum evento acontece. Há um sentido muito específico para o conceito de Acontecimento na filosofia estoica, que não será esse o momento de descrevê-lo. Mas é necessário um mínimo de consideração nesse caso em especial. Vou fazer uma impostura com o conceito, usar ao meu modo e no contexto em que insiro. A exatidão da fórmula estoica foi trabalhada por Gilles Deleuze em Lógica do sentido, muita gente defendeu teses no autor. Sousa Dias foi um desses com o seu Lógica do Acontecimento. O Acontecimento em letra maiúscula “deve dizer não à essência ou à coisa” que acontece ou na coisa que acontece, “mas no acontecimento”. Não é o acidental ou o acidente que acontece no encontro dos corpos. O encontro dos corpos faz o acidente do encontro, mas há algo que se passa entre-dois que é o que no acontecimento (acidente) acontece. O Acontecimento é suspenso da materialidade dos corpos, sobrevoa o acidente dos encontros.

 

“Não designa o acidente das coisas, os estados de ser, nem os factos, as acções exercidas e as paixões sofridas pelos corpos e as paixões sofridas pelos corpos e as modificações corporais actuais decorrentes de umas e de outras. ‘O que se passa’ é que é sempre uma expressão em ato de acontecimento […] na sua absoluta neutralidade”19.

 

O Acontecimento não é ruidoso, não aparece como fenômeno que, é o que acontece, no caso, uma modificação nos corpos. O Acontecimento é o efeito incorporal. Sem ele não haveria a modificação na superfície dos corpos. Há uma mudança de grau, para mais ou para menos, isso é o que acontece. Mas o Acontecimento é o no que acontece. É a profundidade que escapa ao visível tempo “monocentrado Cronos”. Tudo que não é compreensível no encontro dos corpos – mesmo o tecido da roupa é corpo – é Acontecimento puro, está fora da linha do tempo (É Aion), por isso não é compreensível. Por não o ser compreensível às nossas limitações, chamamos de milagre. Ao denunciar “alguém me tocou e de mim saiu virtude”, Jesus quer dizer de um Acontecimento, algo no centro dos muitos eus aconteceu, mas que ninguém pôde ser capaz de perceber e sentir, exceto quem foi tocado e causou o Acontecimento em curso. 

 

“Esse centro descentrado é que traça entre as séries e para todas as disjunções a impiedosa linha reta do Aion, isto é, a distância em que se alinham os despojos, do eu, do mundo e de Deus: grande Cãnon do mundo, fenda do eu, desmembramento divino”20.

 

A intencionalidade do ato de tocar no corpo não encerra o processo do desdobramento em Acontecimento. Esse vai se dar entre as coisas que acontecem, na doença ou na saúde, nos ruídos, nos desejos das pessoas, nas vicissitudes de tudo. E por entre as coisas algo não ruidoso se passa, da profundidade à superfície da pele. Esse acontecimental não é da ordem das vontades, mas tem seu princípio nelas, são os ecos de uma pedra lançada na fina camada das águas de um lago, a pedra tendo sido já lançada, não para de produzir os efeitos em ondas. O Acontecimento não é nada do acontece nas pessoas, no aqui e no agora, do tempo subjetivo, tudo isso está no plano do acidental. A cura da doença já é o acidental no meio do Acontecimento. O que interessa, a causa de tudo, é o devir. O relato do acidental se esgota logo ali, no momento em que a mulher responde, “fui eu senhor”. Mas os devires do Acontecimento nunca se esgotam.

 

“Ele não é o que aconteceu nem o que está na iminência de acontecer, ele está entre ambos, e as duas coisas ao mesmo tempo, o inactual entre-dois, em simultâneo o que vai ocorrer e o que ocorreu já num tempo próprio, sem presente, num tempo infinitivo não-cronológico”21.

 

Um encontro é mais do que aquilo que se passou, de tudo que se testemunhou e se narrou. São devires que acordam e não cessam de acontecer. Daí o caráter revolucionário dos encontros, eles não cessam de se desdobrarem em acontecimentos sucessivos e intermináveis. Mas do que a cura de uma hemorragia foi o processo que se instaurou no corpo do indivíduo, no corpo simbólico, nas pessoas que viveram e entraram em devir e na história que nos deparamos ainda hoje. Seus ecos ressoam, podendo ou não, produzir devires novos. Muito acima dos processos de subjetivação, se encontra a vida de absoluta serenidade, apenas uma vida livre do over dressed, dos muitos estratos da cultura, apenas a vida, “imanência absoluta e beatitude”22. O conceito de beatitude está associado à categoria de singularidade pura, que João Duns Escoto (1266-1308) define como hecceidade.

 

Vamos dizer de outra forma.

1. O desejo é inerente aos corpos. O desejo é similar à vontade de persistir – conatus, no dizer de Espinosa. Não há uma escolha do sujeito em relação ao desejo, há escolha em relação aos objetos desejados. Mas o desejo não  se circunscreve a objetos. Nem mesmo há objeto que supra o desejo. A psicanálise lacaniana diz que o objeto do desejo é obscuro. Hoje parece haver uma aproximação entre filosofia e psicanálise, o desejo é desejo de desejo e não de alguma coisa. Por tanto, desejamos porque é nossa essência desejar. Os objetos são sempre depois e atrasados em relação ao desejo.

 

2. Juntei as noções de desejo e fé indevidamente. Tento explicar agora. A fé é dom que nem todos os indivíduos têm. Mas o desejo é inerente a todo organismo vivo. Fé inclui decisão que prospera. Nem todo mundo tem essa fé religiosa em questão no texto usado aqui. Mas todos os humanos desejam, mesmo que seja desejo de nada ou nada de desejar, mas, ainda assim, é desejo. Em Espinosa, o desejo se confunde com o conatus – vontade de permanecer persistindo. E todos os seres vivos, da fauna e da flora, têm conatus. A mulher que toca as vestes de Cristo tem tudo, conatus, desejo insuperável e uma fé no impossível. Foi assim que se definiu fé: 

 

3. – “São Paulo diz que:

 

– “a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem” ( Hebreus 11:1 ). A fé é um princípio de ação que tira poder de quem tem poder. Mas esse “poder” não se identifica em nada com o poder dos poderosos, mas encontra uma correlação significativa com a “vontade de poder” em Nietzsche. Um poder que se afirma na própria vontade que o poder é. A pobre e sofredora mulher tem esse poder de querer, que lhe dá vontade, o meio que a leva a tocar nas vestes de um homem especial dotado de poder. Por isso ter dito a Pedro:

 

– “Alguém me tocou, pois eu senti que de mim saiu poder”. Poderia também ter dito:

 

– Alguém tocou em mim de forma diferente, eu fui afetado pelo toque de alguém e afetei essa pessoa que me tocou. O bom encontro é aquele que afeta de forma a aumentar a potência de agir do corpo. Ela foi curada. A ética prática de Espinosa se encontra com a práxis do jovem galileu. Não é uma ideia que faz um bom encontro, são corpos que se tocam em meio às ideias. O ato de restabelecer a saúde de um corpo no encontro nos faz compreender o que vem primeiro – a vida. As ideias são segundas em relação à vida. Nenhuma ideia

pode mandar na vida, apenas podem afirmar a vida porque é a vida que faz criar ideias. Como disse, Ele se deixava tocar e tocava, mulheres ou homens, judeus ou pagãos, pobres ou ricos.

 

4. E por fim, o afeto tristeza:

 

– “Então a mulher, vendo que não podia mais ficar escondida, veio, tremendo, e se atirou aos pés de Jesus. E, diante de todos, contou a Jesus por que tinha tocado nele e como havia sido curada na mesma hora”. Numa outra versão se diz de forma mais enfática: “Na presença de todo o povo contou por que tinha tocado nele e como fora instantaneamente curada.” Lucas 8:47. A mulher vivia numa posição de recalque social absoluto naqueles dias, uma mulher com hemorragia muito mais, era repulsiva aos olhares. Há esse nojo ao mundo e nas coisas que acontece no mundo. Uma visão moral do mundo, desprezo e nojo do mundo. Certamente foi preciso muita coragem para agir em meio a homens, aqueles mesmos homens que monopolizam os enunciados das boas novas. Essa mulher extraordinária deu essa enorme contribuição ao seu tempo. Ousou ir lá, enfrentou a multidão de machos, tocou nas vestes do homem em quem ela depositou toda a sua fé. Nesse toque, desse toque ela retirou a potência que buscou durante doze anos na medicina da época. Num único e certeiro toque ela retirou o afeto que lhe restabeleceu a saúde. E o Cristo lhe devolve o afeto de alegria:

 

– “Minha filha, você sarou porque teve fé! Vá em paz”. Ele, gentilmente, atribui a ela e à sua fé a responsabilidade pelo resultado do encontro. “Você sarou porque teve fé”. Um bom encontro é aquele que aumenta a potência de agir de um corpo, diria aqui, Espinosa.

 

O afeto tristeza diminui a potência de agir de um corpo. Os tiranos afetam com a tristeza, roubam a alegria para entristecer e enfraquecer. Assim, podem garantir a submissão por toda uma vida. Os tiranos roubam dos indivíduos a sua consciência daquilo que podem e, consequentemente, lhes furtam a potência de agir. Não saber do que se é capaz, faz pensar não ser capaz. Como diz bem o teólogo Rubem Alves sobre as escolas que criam gaiolas em forma de pedagogia. Fazem homens que querem voar, mas por “temerem o vazio, não podem viver sem certezas. Por isso trocam o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram”23. Queremos certezas ao invés dos voos, por isso, optamos por gaiolas onde passaremos o resto de nossas vidas, conclui o educador e filósofo. A fé é o salto na vertigem das certezas das coisas que se veem, é um lance de dados no abismo da existência. O salto que o desespero humano faz o eu encontrar o seu si mesmo. A salvação da angústia está nesse salto.

 

Fotografia de Clécio Branco

Clécio Branco é psicólogo clínico, Mestre e Doutor em Filosofia. Autor das obras Ensaios de A a Z para mentes inquietas e Encontros com o Mestre I. Disponíveis na Amazon em versão Kindle e física.



Notas

 

 

1 CALDWELL, Taylor. Médico de homens e de almas: a história de São Lucas. Rio de Janeiro. Editora: Record, 2023 (o texto está na orelha do livro).

 

2 ARIAS, Juan. Jesus: esse grande desconhecido. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 160.

 

3 KANDEL. Eric R. Princípios de neurociências. Porto Alegre; AMCH, 2014, p. 435.

 

4 KANDEL. Eric, R. Princípios de neurociências. Porto Alegre; AMCH, 2014, p. 435.

 

5 KANDEL. Eric, R. Princípios de neurociências. Porto Alegre; AMCH, 2014, p. 435.

 

6 KANDEL. Eric, R. Princípios de neurociências. Porto Alegre; AMCH, 2014, p. 438.

 

7 KANDEL, Eric, R. Princípios de neurociências. Porto Alegre; AMCH, 2014, p. 112.

 

8 WHITE, Ellen. Testemunhos para a igreja. Volume 5. São Paulo: Casa Publicadora Brasileira, 2004, p. 444.













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