
AVISO
Aqui não há redenção,
só o inventário do que sobra
quando a guerra mastiga corpos
e
o mundo se cala.
O RISO DA GUERRA
Arrancaram as janelas.
Quebraram as portas.
Voaram estilhaços pela Terra fora.
As mulheres de cara tapada
correm com crianças ao colo.
Ouvem-se gargalhadas dos corpos.
Mais nada.
CÂMARA ESCURA DA VERDADE
I
Eles cavam.
Cavam com as mãos.
Cavam com pedaços de janelas.
Cavam com o que resta das paredes.
Cavam com os ossos.
Cavam para encontrar o som da mãe.
II
A mãe está debaixo do quarto.
O quarto está debaixo de bombas.
Dizem que não há guerra.
Mas há aviões que comem as casas.
E o céu está cheio de veneno.
DOS CIPRESTES
Os ciprestes
erguem-se como sentinelas
de campos-santos.
Em zonas mais obscuras elevam-se
à altura dos mortos.
EM GAZA
Em Gaza
até o silêncio
faz barulho,
as bombas
pontuam frases
que nenhum poeta escreveu.
As mulheres
bordam nomes
em lençóis de luto.
As crianças
aprendem a contar
pelos drones no céu.
E Deus,
escreve no corpo dos mortos
com sulcos de fumo.
O PESO DO SILÊNCIO
O céu abriu-se em balas,
as mulheres apertaram os filhos
como árvores que seguram os frutos.
A Terra
e
a Morte
não fazem perguntas.
EVANGELHO DOS DRONES
Sobre as cabeças
drones vigiam sonhos.
Quem olha para cima vê estrelas de bombas,
bombas que fazem o sinal da cruz.
O Filho do Homem
faz parte do eco das explosões.
Maria Azenha (Coimbra, Dezembro de 1945), é uma poeta portuguesa.
Licenciou-se em Ciências Matemáticas pela Universidade de Coimbra. Exerceu funções docentes nas Universidades de Coimbra, Évora e Lisboa. Desempenhou actividade docente no Quadro de Nomeação Definitiva na Escola de Ensino Artístico António Arroio. Membro da Associação Portuguesa de Escritores e membro de honra do Núcleo Académico de Letras e Artes de Lisboa.
Tem vários livros publicados.










