Poesia & Conto

Panegia: III | Daniela Braga Azevedo

Panegia: III_

 

o vazio das ruas,
carregava mais do que a sua ausência.

havia ali um aviso.
como se o mundo tivesse passado um limite
e já não houvesse regresso.

Não era o vazio —
era o que nele já estava em curso.

 

E depois o calor.

travava uma luta com a respiração.
tornava-a lenta, pesada,
difícil de sustentar —
como se o ar já não estivesse feito para ser respirado.

 

era um aperto,
uma suspensão no corpo.

uma presença constante
que policiava os movimentos,
como se exigisse resposta.

pedia forma,

matéria.

e tinha um preço —

amputava o que ali podia ter acontecido,

Valadar detinha-se nisso.

 

os vazios que não eram preenchidos,
cresciam.

até ganharem dimensão,

e engolirem quem os deixava crescer.

 

lá fora,
as ruas estavam assim,

à mercê do que, agora, as ocupava.

 

 

Valadar não temia os bichos.

nem os grilos.

o que o prendia,
era outra coisa.

o vazio.

o dele,
o das ruas.

da janela, via a rua da liberdade —
já só lhe restava o nome.

 

Mas um vazio mais elementar, impunha-se,

a despensa.

depois de dias confinado,
já não havia margem.

as lojas tinham fechado.

na rádio, falavam de um banco alimentar
no fundo da rua da liberdade.

Valadar teria de sair à noite, como todos os outros.

de dia
o calor queimava a pele,
tornava a rua inabitável.

reduzidos a uma vida noturna,
saiam à socapa,

 

o calor.

não era apenas o excesso.

havia nele qualquer coisa de deliberado,
a terra parecia ter recuado.

um abandono lento,
um adormecimento.

o mundo deixado sem resposta.

não era castigo.

era ausência.

 

a terra já não se regulava,

as consequências surgiam,

bastaria preencher os vazios
para que tudo voltasse ao lugar.

mas ninguém ensina como se preenche aquilo que nos destrói.

 

Valadar adiava a saída,

a hesitação marcava o relógio.

dizia a si mesmo
que talvez fosse seguro
não havia registos de ataques

os grilos limitavam-se a ocupar
o que alguém deixava vazio. nada mais.

 

era lusco-fusco.
a temperatura tinha cedido quando Valadar saiu de casa.

o cabelo, já longo,
caía-lhe sobre os ombros.

afastou-o do rosto
com a mão.

demorou-se nesse gesto.

um cuidado antigo
em não avançar antes do tempo.

 

os olhos,
quando fixavam,
não dispersavam.

mantinham-se.

e havia nisso
qualquer coisa de íntegro.

 

caminhava apressado.

olhava por cima do ombro.

nada.

apenas a própria sombra.

um mundo de grilos
e de sombras.

 

havia nelas
qualquer coisa por revelar.

Já não se tentava sair dali. tinham-se resignado.

A resignação acolhe.

 

Alguns arriscavam.

avançavam com uma urgência cega.

gesto após gesto,

sem direção.

como se o movimento
pudesse substituir o caminho.

 

o silêncio na rua era fundo,
e os passos de Valadar ouviam-se, um após o outro,
sobre folhas secas mastigadas pelos pés.

as janelas, semicerradas, escondiam olhos.

ele sabia.

 

um ligeiro vento levantou-se, fazendo esvoaçar algumas folhas
e, entre elas, uma folha de jornal.

Valadar tentou apanhá-la,
mas o papel revoluteava no ar, fugindo-lhe das mãos.

tentou de novo,
acompanhando o movimento irregular do papel,
até que, por fim, conseguiu agarrá-lo.

aproximou-o dos olhos.

lia-se:

“relógios parados multiplicam-se”

A frase agita-lhe a mente.

 

In Panegia, Daniela Braga Azevedo

                                                                                                                                              (2732 caracteres, sem espaços)

Substack: https://substack.com/@danielabragaazevedo

 

fotografia de Daniela Braga Azevedo.

Daniela Braga Azevedo escreve prosa poética, numa linguagem literária simbólica, reflexiva e mitopoética, explorando a condição humana através da transformação simbólica do mundo. A sua escrita caracteriza-se por um ritmo fragmentado e cadenciado, próximo do verso livre, pela associação simbólica de imagens e por uma estrutura conceptual em detrimento da linearidade narrativa.

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