
o vazio das ruas,
carregava mais do que a sua ausência.
havia ali um aviso.
como se o mundo tivesse passado um limite
e já não houvesse regresso.
Não era o vazio —
era o que nele já estava em curso.
E depois o calor.
travava uma luta com a respiração.
tornava-a lenta, pesada,
difícil de sustentar —
como se o ar já não estivesse feito para ser respirado.
era um aperto,
uma suspensão no corpo.
uma presença constante
que policiava os movimentos,
como se exigisse resposta.
pedia forma,
matéria.
e tinha um preço —
amputava o que ali podia ter acontecido,
Valadar detinha-se nisso.
os vazios que não eram preenchidos,
cresciam.
até ganharem dimensão,
e engolirem quem os deixava crescer.
lá fora,
as ruas estavam assim,
à mercê do que, agora, as ocupava.
Valadar não temia os bichos.
nem os grilos.
o que o prendia,
era outra coisa.
o vazio.
o dele,
o das ruas.
da janela, via a rua da liberdade —
já só lhe restava o nome.
Mas um vazio mais elementar, impunha-se,
a despensa.
depois de dias confinado,
já não havia margem.
as lojas tinham fechado.
na rádio, falavam de um banco alimentar
no fundo da rua da liberdade.
Valadar teria de sair à noite, como todos os outros.
de dia
o calor queimava a pele,
tornava a rua inabitável.
reduzidos a uma vida noturna,
saiam à socapa,
o calor.
não era apenas o excesso.
havia nele qualquer coisa de deliberado,
a terra parecia ter recuado.
um abandono lento,
um adormecimento.
o mundo deixado sem resposta.
não era castigo.
era ausência.
a terra já não se regulava,
as consequências surgiam,
bastaria preencher os vazios
para que tudo voltasse ao lugar.
mas ninguém ensina como se preenche aquilo que nos destrói.
Valadar adiava a saída,
a hesitação marcava o relógio.
dizia a si mesmo
que talvez fosse seguro
não havia registos de ataques
os grilos limitavam-se a ocupar
o que alguém deixava vazio. nada mais.
era lusco-fusco.
a temperatura tinha cedido quando Valadar saiu de casa.
o cabelo, já longo,
caía-lhe sobre os ombros.
afastou-o do rosto
com a mão.
demorou-se nesse gesto.
um cuidado antigo
em não avançar antes do tempo.
os olhos,
quando fixavam,
não dispersavam.
mantinham-se.
e havia nisso
qualquer coisa de íntegro.
caminhava apressado.
olhava por cima do ombro.
nada.
apenas a própria sombra.
um mundo de grilos
e de sombras.
havia nelas
qualquer coisa por revelar.
Já não se tentava sair dali. tinham-se resignado.
A resignação acolhe.
Alguns arriscavam.
avançavam com uma urgência cega.
gesto após gesto,
sem direção.
como se o movimento
pudesse substituir o caminho.
o silêncio na rua era fundo,
e os passos de Valadar ouviam-se, um após o outro,
sobre folhas secas mastigadas pelos pés.
as janelas, semicerradas, escondiam olhos.
ele sabia.
um ligeiro vento levantou-se, fazendo esvoaçar algumas folhas
e, entre elas, uma folha de jornal.
Valadar tentou apanhá-la,
mas o papel revoluteava no ar, fugindo-lhe das mãos.
tentou de novo,
acompanhando o movimento irregular do papel,
até que, por fim, conseguiu agarrá-lo.
aproximou-o dos olhos.
lia-se:
“relógios parados multiplicam-se”
A frase agita-lhe a mente.
In Panegia, Daniela Braga Azevedo
(2732 caracteres, sem espaços)
Substack: https://substack.com/@danielabragaazevedo
Daniela Braga Azevedo escreve prosa poética, numa linguagem literária simbólica, reflexiva e mitopoética, explorando a condição humana através da transformação simbólica do mundo. A sua escrita caracteriza-se por um ritmo fragmentado e cadenciado, próximo do verso livre, pela associação simbólica de imagens e por uma estrutura conceptual em detrimento da linearidade narrativa.










